Quem vê aquela senhorinha vaidosa, de sorriso largo e passos firmes, dificilmente imagina a idade que ela carrega no corpo. Ou melhor, que se recusa a carregar. Aos 103 anos, dona Floripes Malheiros Garrido desafia o calendário como quem dobra uma esquina conhecida.
Sobe e desce sozinha os 18 degraus que levam ao apartamento onde mora, no 1º andar de um prédio da Rua Miguel Burnier, na Barra, com a mesma naturalidade de quem ainda tem uma vida inteira pela frente.
A rotina alimentar também desafia qualquer cartilha sobre envelhecimento. Dona Flor toma Coca-Cola todos os dias e adora caipirosca de caju.
Na mesa, também se esbalda. Come acarajé, abará, feijoada e moqueca de peixe sem parcimônia. “Como de tudo, mas um feijãozinho de leite com peixe tem o seu lugar”, confessa.
Ao ser questionada sobre sua idade, dona Flor lança a pergunta à filha, como se o número pertencesse mais aos outros do que a ela. Diante da resposta, devolve descrente: “É mesmo? Me sinto como se tivesse 40, 50 anos. Graças a Deus tenho vitalidade, minha vida toda é dirigida por mim. Tomo conta de tudo, da minha vida e dos que estão perto de mim”, conta, orgulhosa.
É como se, em algum momento da vida, o tempo tivesse desacelerado apenas para ela. Certa vez, confidenciou a uma prima: “Não estou convencida de ser velha, só um pouquinho usada”.
Aliás, “velha” é uma palavra que dona Flor rejeita com firmeza. “Acho uma palavra muito feia. Velho é o que não presta, o que se joga fora. Não gosto não”, sentencia. E faz questão de reafirmar sua própria definição de existência: “Não me sinto velha, me sinto ótima. Costuro muito, faço crochê. Sou uma pessoa que não é de se jogar fora”.
A vida de dona Flor pulsa, tem movimento. Talvez por isso ela pareça perder a noção do tempo — ou simplesmente se recuse a obedecê-lo. Já atravessou mais de 37,5 mil dias e integra o seleto grupo dos 5.536 baianos que passaram dos 100 anos.
Em Salvador, são 516 centenários, segundo o último Censo do IBGE. Mas, para ela, envelhecer nunca significou uma espera silenciosa pelo fim.
Quando questionada se há uma receita para viver tanto e chegar a essa idade tão bem, ela recorre ao simples: “O segredo da longevidade é ser de coração, pensar só no que é bom. E quem não tem com quem dançar, dançar sozinho”. Talvez seja isso.
Enquanto muita gente apenas atravessa o tempo, dona Flor parece ter feito um acordo silencioso com a vida: ela quer continuar cantando, dançando, passeando e tomando Coca-Cola. As informações são do Correio 24h.

