Na atmosfera histórica de Igatu, distrito do município de Andaraí, na Chapada Diamantina, a literatura ganhou voz e presença entre os dias 13 e 16 de maio, com a primeira edição da Festa Literária de Igatu (Fligatu). Artistas da palavra selecionadas pelo edital Circulações Literárias Ano II marcaram presença no evento apresentando reflexões sobre identidade, memória, diversidade, saberes ancestrais e luto.
O Circulações Literárias é um projeto da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), em cooperação com a Fundação Pedro Calmon (FPC), entidades vinculadas à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-Ba), que busca fortalecer a difusão, circulação e distribuição da produção literária baiana, ampliando a troca de experiências entre autores, mestres da cultura popular e diferentes comunidades.
A participação iniciou no dia 13, com o coletivo Thydêwá, formado por Kota Payayá, Maria Pankararu, numa mesa de conversa sobre identidade, memória, produção e escrita dos povos originários e sua importância na literatura. A mesa teve a participação da escritora e pesquisadora Geni Núñes, que mostrou sua obra “Descontruindo afetos” e falou sobre reflexões referentes às relações humanas a partir de uma perspectiva não colonial.
Na manhã do dia 14, a autora Kátia Letícia, participou de uma mesa de conversa com o tema “Ervas e plantas” e apresentou sua obra “Sete quilombos nas encantarias literárias”. Ela contou com a companhia das mestras dos saberes (como são chamadas na região) em plantas, Dona Danúzia, benzedeira, e Helenita da Conceição, da comunidade quilombola de Massarandupió.
No mesmo dia, à tarde, a escritora Maria Dolores Rodriguez realizou uma intervenção artística e audiovisual baseada na sua obra “Procurem Luísa”, que trata de memórias afetivas. Em seguida, houve a leitura de trechos e exposição de fotos da publicação. Segundo a autora, ela foi despertada pela vontade de inventar uma possibilidade de existir após o acontecimento tão marcante que foi a morte da sua mãe.
“Nem todas as mães e filhos são iguais, mas em geral, a relação de proximidade e profundidade, sim. A literatura me permitiu inventar um lugar que pudesse caber a elaboração das memórias dessa mulher (Luísa) e a minha relação como escritora e filha. Me permitiu inventar um lugar onde eu podia existir a partir desse luto e também, um lugar como pessoa e poeta que venho me tornando”, afirmou Maria Dolores.
No dia 15, no início da noite, foi a vez da escritora Viviane Dias apresentar uma performance da obra “Diáspora Afro-Mulher”. Uma experiência sensível unindo poesia, música e artes visuais em uma apresentação literária-musical com a participação da escritora Maria Dolores Rodriguez e do músico Rodrigo Borges. A artista falou sobre a Fligatu e o encantamento que o local causa nas pessoas. “Só de participar da grade dos artistas já me sinto lisonjeada. Apresentar minha poesia aqui é algo que me emociona e o que me toca ainda mais é poder estar acompanhada de pessoas que admiro muito”, revelou.
O projeto
O Circulações Literárias, no seu segundo ano de atuação, já se estabelece como uma iniciativa que viabiliza a difusão, circulação e distribuição da produção literária baiana, também em festas e feiras literárias, realizados no estado, proporcionando encontros entre escritores e comunidades, palestras, leituras públicas, performances, saraus, seminários e rodas de conversa. O primeiro edital, aberto em 2024, garantiu o apoio financeiro de R$ 20 mil para 10 artistas, enquanto a segunda edição, em 2025, ampliou o aporte para R$ 25 mil destinados a 14 artistas.
A coordenadora de Literatura da Diretoria das Artes (Dirart) da Funceb, Karina Rabinovitz, avaliou positivamente a presença do Circulações Literárias na Fligatu. “O projeto foi pensado justamente para fomentar esse movimento de troca de experiências, levar os artistas aos territórios e criar conexões reais. Igatu nos mostrou que há uma demanda viva por literatura, por escuta e por expressões artísticas, é reconhecer que a literatura também se constrói nos espaços de memória, nas comunidades e nas paisagens que contam histórias”, avaliou
A primeira festa literária de Igatu se firma, assim, como um marco no calendário cultural da região da Chapada Diamantina, abrindo caminhos para novas edições e reforçando o papel da literatura como ponte entre passado, presente e futuro.

