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#Chapada: Serra da Chapadinha segue sem fiscalização após ataques e decreto de proteção do governo Jerônimo

Serra da Chapadinha possui 18,4 mil hectares e está localizada no sul da Chapada Diamantina | FOTO: Divulgação |

A Serra da Chapadinha permanece sem fiscalização após dois ataques contra ambientalistas que atuavam na proteção do território, localizado entre Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, no sul da Chapada Diamantina, mesmo depois da área ter sido incluída em um decreto de proteção ambiental, situação que preocupa diante das denúncias de desmatamento, mineração e especulação fundiária em uma região estratégica para a segurança hídrica da Bahia.

Com 18,4 mil hectares, a Serra da Chapadinha conserva mais de 90% de sua vegetação nativa e integra o sistema hídrico da Bacia do Rio Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de mais de 60% da Região Metropolitana de Salvador. A área também possui nascentes, rios, águas subterrâneas e turfeiras, ambientes que contribuem para a retenção de água e carbono.

Apesar da proteção oficial, ambientalistas que durante anos acompanharam a região afirmam que o território está atualmente sem fiscalização. A preocupação aumentou depois que eles precisaram deixar a área após ataques realizados por homens armados.

“É muito bonito quando a gente fala que o decreto foi feito, mas a gente precisa que o Estado ocupe o território. Porque lá está uma terra sem lei, onde jagunço manda. Só o decreto não adianta nada. É preciso o Estado estar lá, fazer uma base fixa, fazer educação ambiental com as pessoas do entorno e começar a fazer todo o trabalho de gestão”, afirma Alcione Correa, uma das ambientalistas que atuavam na defesa da Serra da Chapadinha.

Ambientalistas relatam ter deixado a Serra após ataque de homens fortemente armados | FOTO: Divulgação |

Área é considerada estratégica para recursos hídricos
A importância ambiental da Serra está relacionada não apenas à biodiversidade, mas também à capacidade do território de armazenar e liberar água ao longo do ano. A vegetação e o solo contribuem para a retenção da água durante os períodos chuvosos, enquanto a liberação gradual ajuda a alimentar nascentes, cursos d’água e reservas subterrâneas durante a estiagem.

Entre as formações existentes na região estão as turfeiras, que armazenam matéria orgânica e água e exercem funções relacionadas à manutenção hídrica e à retenção de carbono.

A Serra da Chapadinha também está ligada ao sistema hídrico do Rio Una, que se conecta ao Rio Paraguaçu.

“Às vezes a gente só fala de água de beber, mas é água de beber, é água do agro, é a água da indústria, é a água do turismo, é água do comércio. Um monte de setores da economia precisa de água. Proteger a Serra da Chapadinha é uma questão de sobrevivência”, afirma Alcione.

Mobilização pela proteção começou antes das denúncias de mineração
A atuação dos ambientalistas na região começou por volta de 2010, quando Alcione Correa e Marcos Fantini deixaram o ABC Paulista e se estabeleceram na Bahia. Inicialmente, desenvolveram atividades relacionadas ao turismo de natureza, pesquisas científicas e catalogação da fauna.

A Toca do Lobo, abrigo localizado na serra, tornou-se residência do casal e, posteriormente, ponto de apoio para pesquisadores, fiscais ambientais e ações de preservação.

O contato com a fauna foi um dos fatores que impulsionaram o trabalho. Entre os episódios relatados pelos ambientalistas está o encontro com uma onça-parda a poucos metros deles durante a noite.

“É um negócio maravilhoso, uma riqueza de biodiversidade gigante. Para você ter ideia, tem um cnidário, uma água-viva de água doce, que não é catalogada pela Bahia. A nossa história começou muito pelo contato com essa fauna, que era muito rica. A gente começou a fazer um trabalho de catalogação de fauna, pesquisas científicas e turismo de natureza”, relata Alcione.

A partir de 2021, segundo a ambientalista, um grupo ligado à atividade minerária começou a entrar na região. O casal passou então a acionar órgãos ambientais e o Ministério Público para tentar impedir o avanço da exploração.

A preocupação com a ocupação do território, porém, não se restringe à mineração. Também são apontadas ameaças relacionadas ao desmatamento e à especulação imobiliária.

Estrutura da Toca do Lobo foi destruída durante o segundo ataque registrado na propriedade | FOTO: Divulgação |

Ambientalistas deixaram território após ataque
No dia 1º de maio de 2026, Alcione e Marcos foram acordados durante a madrugada por homens que, segundo o relato, estavam fortemente armados. Os equipamentos de comunicação e energia da propriedade foram destruídos, e o casal precisou deixar a Toca do Lobo a pé.

Para chegar a um local seguro, eles percorreram mais de 15 quilômetros por uma área isolada e de difícil acesso.

“Fomos acordados por milicianos, fortemente armados. Destruíram os nossos equipamentos de comunicação, de energia e tudo mais. Foi quando a gente fugiu a pé. Teve que andar mais de 15 quilômetros lá para fugir. É um território muito isolado, muito ermo. Foi quando a gente veio para Salvador procurar apoio”, conta.

O inquérito policial que apura o caso segue em segredo de Justiça e, segundo as informações fornecidas, ainda não há indiciados.

O ataque ocorreu após uma visita da Secretaria de Meio Ambiente à região para ouvir comunidades do entorno da serra. Mesmo longe do território, os ambientalistas continuaram cobrando medidas de proteção e responsabilização dos envolvidos.

Mineração é apontada pelos ambientalistas como uma das ameaças ao território protegido | FOTO: Divulgação |

Segundo ataque destruiu estrutura da Toca do Lobo
A saída do casal não encerrou os episódios de violência. Durante o avanço do processo de proteção da área e após uma consulta pública, criminosos voltaram à Toca do Lobo.

Dessa vez, não havia ninguém na propriedade. Ainda assim, a estrutura foi destruída. O imóvel sofreu danos em paredes, telhado, banheiro, vigas e sistema de energia. Equipamentos de comunicação e outros bens também foram destruídos.

O espaço havia funcionado durante anos como residência dos ambientalistas, abrigo, base para pesquisas e ponto de apoio para ações de fiscalização e preservação. Desde então, segundo Alcione, não foi realizada vistoria no local.

“Ainda não foi feita nenhuma vistoria, nenhuma fiscalização do local. E a gente teve relato de pessoas que estão tendo desmatamento e afins. É muito bonito quando a gente fala que o decreto foi feito, mas a gente precisa que o Estado ocupe o território. Porque lá está uma terra sem lei”, afirma.

Ambientalistas cobram fiscalização permanente e instalação de uma base fixa na Serra da Chapadinha | FOTO: Divulgação |

Ambientalistas cobram presença permanente do Estado
Para Alcione, a proteção estabelecida pelo decreto precisa ser acompanhada por medidas concretas de fiscalização e gestão da área.

A ambientalista defende a instalação de uma base fixa, a presença de um gestor e a realização de ações de educação ambiental com as comunidades do entorno.

“A gente espera que, num prazo muito rápido, de no máximo um mês, exista um plano de ocupação desse território, que envolva base fixa, gestor, porque tem dinheiro para isso. O próprio TCE já colocou que existe dinheiro para isso. Então a gente espera realmente que o Estado cumpra seu papel e proteja a água de milhões de baianos”, cobra.

Além da fiscalização, os ambientalistas pedem a responsabilização dos envolvidos nos ataques.

“O segundo ponto é realmente a responsabilização dos criminosos, dos executantes, dos mandantes e dos financiadores. Porque enquanto a gente não tiver a responsabilização, a gente vai continuar nesse ciclo de barbárie”, afirma.

Casal permanece longe da área
Desde que deixou a Serra da Chapadinha, o casal permanece longe da Toca do Lobo e alterna estadias em casas de conhecidos e imóveis alugados. Com a destruição da propriedade, perdeu também a estrutura utilizada durante anos para desenvolver atividades de pesquisa, preservação e apoio a ações ambientais.

Alcione também critica a ausência de manifestações que considera suficientes por parte do governo estadual diante dos ataques sofridos pelo casal.

“Eles não fizeram nenhum tipo de fala sobre o nosso caso, sobre a nossa violência. Nenhuma palavra minimamente de sentimento, de dizer ‘olha, isso é uma coisa que não pode acontecer’. Essa ausência na fala parece que eles aceitam esse tipo de violência. Parece, às vezes, que, se eu não falar do caso, o problema some. Não é assim”, afirma.

Para a ambientalista, os ataques também representaram uma tentativa de intimidar a atuação da sociedade civil na defesa do território.

“Foi uma tentativa de silenciamento da participação social. O que eles queriam, na verdade, era amedrontar a gente e que a gente ficasse quieto. Só que a gente saiu do território e tentou abrir a boca para o mundo”, diz.

Decreto é considerado avanço, mas fiscalização é cobrada
A inclusão da Serra da Chapadinha em um decreto de proteção ambiental é considerada uma conquista pelos ambientalistas que participaram da mobilização. A medida ocorreu após anos de denúncias, processos administrativos e articulações envolvendo pesquisadores, ambientalistas e parlamentares.

Apesar disso, a falta de fiscalização é apontada como o principal obstáculo para transformar a proteção jurídica em preservação efetiva.

“Eu quero voltar para casa. A gente não pode ser eternamente punido por estar protegendo a água de milhões. Hoje a gente está sendo culpado por isso. É um crime contínuo o que está acontecendo com a gente, porque a gente não tem casa, sofreu uma violência muito grande e existe essa omissão do Estado em falar qualquer coisa. A gente espera que tenha uma reparação disso. A gente foi penalizado por cumprir a cidadania e pela ausência do Estado no território”, completa Alcione.

A preocupação dos ambientalistas é que, sem fiscalização permanente, a Serra da Chapadinha continue vulnerável às atividades denunciadas, mesmo após a criação de mecanismos oficiais de proteção. Para eles, a preservação da área depende da presença efetiva do poder público no território. As informações são do Correio24h.

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