Entre pedras, arbustos e trechos de mata que formam a paisagem singular da Chapada Diamantina, um pequeno lagarto de cores discretas para alguns e marcantes para outros sobrevive em uma área limitada do território baiano. O papa-vento-da-Chapada (Enyalius erythroceneus) é uma espécie encontrada exclusivamente nessa região e que passou a ser classificada como Criticamente em Perigo, aumentando a atenção sobre a preservação dos ambientes onde ainda pode ser encontrado.
Com distribuição restrita, o animal está ligado principalmente às áreas de mata da Chapada e de regiões próximas. A espécie foi descrita oficialmente pela ciência somente em 2006, a partir de exemplares coletados no município de Mucugê, um dos territórios que ajudam a explicar a relação do réptil com os ambientes naturais da região.
Um habitante singular da Chapada
O papa-vento apresenta diferenças visíveis entre machos e fêmeas. Nos machos, o corpo possui faixas escuras acompanhadas por áreas alaranjadas e avermelhadas nas laterais. As fêmeas têm uma coloração mais discreta, predominantemente marrom, característica que pode contribuir para sua camuflagem entre a vegetação.
O próprio nome científico faz referência à aparência do animal. O termo erythroceneus tem origem grega e está relacionado à coloração avermelhada observada no corpo. Pequeno e associado à vegetação, o lagarto ocupa ambientes de mata baixa, densa e semidecidual, encontrados em áreas próximas a mil metros de altitude.
Na Chapada Diamantina, esse tipo de ambiente funciona como abrigo e espaço de alimentação para diferentes espécies. O papa-vento faz parte dessa cadeia ecológica e se alimenta principalmente de insetos, como grilos, baratas e gafanhotos. Também é uma espécie ovípara, embora ainda existam poucas informações disponíveis sobre seu processo reprodutivo e outros aspectos de sua biologia.
Para o herpetólogo Miguel Trefaut Urbano Rodrigues, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos pesquisadores que participaram da descrição do animal, a distribuição extremamente limitada é um dos principais fatores de preocupação. “É um lagarto muito raro! Só é encontrado nessa região”, comenta.
Preservar onde ele ainda existe
A raridade ganha ainda mais peso quando considerada a transformação da paisagem da Chapada. Parte das áreas de mata associadas à espécie foi alterada pela expansão das atividades agropecuárias, sobretudo nos Gerais de Mucugê. A retirada da vegetação e a fragmentação dos ambientes reduzem os espaços disponíveis para espécies que dependem dessas formações naturais.
O ICMBio aponta a destruição, a descaracterização e a fragmentação das matas entre as principais ameaças ao papa-vento-da-Chapada. Incêndios na vegetação nativa e a expansão das atividades agropecuárias também aparecem entre os fatores que podem comprometer a permanência da espécie na região.
A situação se tornou mais preocupante com a atualização de sua classificação. O papa-vento, que anteriormente aparecia como “Em Perigo”, passou a ser enquadrado como “Criticamente em Perigo” na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. A categoria integra o atual ciclo do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada do Nordeste, com vigência entre 2026 e 2031.
Além da pequena área de ocorrência, outro problema dificulta a proteção do lagarto: os pesquisadores ainda não sabem exatamente quantos indivíduos existem nem como suas populações estão se comportando ao longo do tempo. A falta dessas informações torna cada novo registro relevante para entender a distribuição da espécie e identificar os locais que ainda oferecem condições para sua sobrevivência.
Foi nesse contexto que os registros feitos pelo biólogo e gestor ambiental Fábio Lima Braga de Jesus ganharam importância. Durante levantamentos de fauna na Reserva Florestal Toca do Tatu, no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina, ele encontrou exemplares que ainda não haviam sido registrados na área. O primeiro encontro ocorreu enquanto conduzia uma atividade com turistas. “O momento foi inesperado, uma vez que não havia registros ainda para o local”, conta Fábio.
O trabalho realizado na reserva combina busca ativa e armadilhas fotográficas, enquanto a chamada ciência cidadã amplia a possibilidade de encontrar novos exemplares. Moradores, guias, condutores de turismo e visitantes podem colaborar enviando fotografias, vídeos, data e localização dos animais avistados.
Para Rodrigues, a combinação entre a raridade e a reduzida área de ocorrência torna a conservação especialmente necessária. “Sim, é um lagarto francamente ameaçado face à sua raridade e área de ocorrência restrita. Uma pena, face à sua beleza”, completa.
Na Chapada Diamantina, portanto, a preservação do papa-vento está diretamente ligada à manutenção dos fragmentos de mata onde a espécie consegue viver. Proteger esses ambientes significa conservar não apenas um réptil encontrado em poucos lugares, mas também as relações ecológicas e a biodiversidade de uma das regiões naturais mais singulares da Bahia. Jornal da Chapada com informações do portal G1.

