Entre ruas de pedra, construções históricas e vestígios do antigo ciclo do diamante, Igatu preserva parte da memória da Chapada Diamantina em suas próprias casas. O distrito de Andaraí mantém um conjunto arquitetônico formado por imóveis construídos principalmente durante o período de exploração mineral e, atualmente, moradores, mestres construtores e estudantes de arquitetura participam de ações voltadas à conservação dessas estruturas.
Mais do que manter fachadas antigas, o trabalho busca permitir que o patrimônio continue integrado à vida da comunidade. A proposta é oferecer assistência técnica para que famílias que vivem em imóveis tombados possam realizar intervenções de conservação sem perder as características que fazem das construções de pedra parte da identidade histórica de Igatu.
Patrimônio preservado entre as montanhas
O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Igatu foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2000. A área protegida reúne cerca de 200 imóveis e inclui antigas habitações de pedra e ruínas localizadas entre a ponte sobre o Rio Coisa Boa e a trilha que leva às áreas do antigo garimpo.
Conhecida também como Xique-Xique do Igatu e Cidade de Pedras, a vila mantém características do núcleo formado em meados do século XIX. Para o Iphan, o conjunto preservado funciona como um registro da história da mineração de diamantes no Brasil, mantendo elementos que ajudam a compreender o modo como a comunidade se desenvolveu durante o período de exploração mineral.
Com o declínio do garimpo, muitos moradores deixaram Igatu e a localidade passou por um longo período de redução populacional. Nas últimas décadas, porém, o distrito voltou a receber visitantes atraídos pelas paisagens serranas, trilhas, cachoeiras e pelo próprio conjunto histórico.
O turismo passou a ocupar papel importante na economia local, mas a preservação das construções permanece como um dos principais elementos que diferenciam o destino.
Conservação feita por quem vive no patrimônio
É nesse cenário que surgiu o trabalho desenvolvido pelo Programa Conviver, iniciativa de assistência técnica voltada à conservação de imóveis tombados habitados. Em Igatu, o projeto conta com a participação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aproximando o conhecimento acadêmico das técnicas utilizadas por moradores e mestres construtores da comunidade.
A iniciativa prevê que as famílias recebam orientação para desenvolver projetos de conservação de suas próprias casas. No fim de 2024, três novos projetos arquitetônicos foram entregues a moradores da vila, abrindo caminho para uma nova etapa, que envolve a realização das obras por meio de oficinas e atividades práticas.
Uma das primeiras casas beneficiadas pertence à aposentada Dona Sebastiana Leite. A proposta é que a intervenção seja realizada com participação dos moradores, professores, estudantes e profissionais que dominam as técnicas tradicionais utilizadas na construção do casario de pedra.
Saberes que atravessam gerações
O aprendizado acontece diretamente nos canteiros. Em uma das oficinas realizadas na vila, estudantes e professores da UFBA trabalharam ao lado de mestres construtores e ajudantes locais na construção de muros utilizando alvenaria de pedra, técnica que caracteriza parte importante da arquitetura histórica de Igatu.
A experiência também envolve a elaboração de projetos para outras moradias. Segundo a UFBA, o trabalho chegou a contemplar 30 habitações de moradores, ampliando a possibilidade de levar a assistência técnica para diferentes famílias que vivem dentro da área protegida.
A atuação da universidade está dividida em três frentes. Uma delas funciona como escritório responsável pelos projetos de assistência técnica, outra pesquisa alternativas de saneamento adequadas às características do distrito e a terceira promove a troca entre os conhecimentos acadêmicos e os saberes construtivos tradicionais mantidos pelos moradores.
A preservação das casas de pedra, nesse sentido, ultrapassa a recuperação de estruturas antigas. O projeto busca manter vivo um conhecimento construtivo que faz parte da história de Igatu e, ao mesmo tempo, garantir que os imóveis continuem sendo espaços de moradia. Para a Chapada Diamantina, a conservação desse patrimônio também contribui para manter uma paisagem cultural que se tornou parte da identidade da região e um dos elementos que atraem visitantes ao distrito.
Entre o patrimônio protegido e a vida cotidiana, Igatu segue construindo uma relação própria com sua história. As casas, ruínas, trilhas e paisagens que permanecem na vila não são apenas registros de um passado ligado aos diamantes, mas também parte de um território que encontrou no turismo, na cultura e na preservação novas formas de manter sua história presente.
Jornal da Chapada

