Ícone do site Jornal da Chapada

#Bahia: Inadimplência cresce em ritmo 3,7 vezes maior que o do país e atinge 5,2 milhões de consumidores

Antes de quitar dívidas, o consumidor deve preservar alimentação, moradia e o transporte necessário para o trabalho, orienta o economista Vinicius Assis | FOTO: Divulgação |

A inadimplência avançou na Bahia em um cenário de orçamento doméstico pressionado, renda mais baixa e crédito caro. Segundo levantamento da Serasa, o estado registrou mais de 5,2 milhões de consumidores inadimplentes em julho, número 0,86% maior que o de junho. No mesmo período, a alta nacional foi de 0,23%.

O avanço da inadimplência na Bahia, portanto, ocorreu em ritmo cerca de 3,7 vezes superior ao registrado no Brasil.

Em Salvador, a pressão sobre o orçamento também aparece na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Fecomércio-BA. Em agosto, 25% das famílias estavam com contas em atraso. Entre aquelas com renda de até dez salários mínimos, mais de 80% possuíam algum tipo de dívida.

Para o economista Vinicius Assis, MBA em Macroeconomia e CEO da Ônix Capital, a combinação de menor renda disponível, despesas essenciais e juros elevados reduz a margem das famílias para absorver imprevistos.

“Quando a renda é menor, os gastos essenciais ocupam uma parcela proporcionalmente maior, deixando menos espaço para absorver aumentos de preços, juros ou despesas inesperadas”, explica.

Dados do IBGE ajudam a dimensionar a diferença. Em 2025, o rendimento nominal mensal domiciliar per capita foi de R$ 1.465 na Bahia, ante R$ 2.316 na média brasileira — uma diferença de aproximadamente 37%.

Crédito disponível não significa capacidade de pagamento
O cenário baiano acompanha um movimento observado nacionalmente: o crédito permanece disponível, mas isso não significa, necessariamente, que as famílias tenham ampliado sua capacidade de assumir novas parcelas.

Segundo Assis, o crescimento da inadimplência não pode ser atribuído isoladamente à expansão do crédito, já que é preciso considerar fatores como perfil do consumidor, modalidade contratada, taxas de juros e evolução da renda.

“É uma combinação de fatores. Para as famílias de baixa renda, a falta de margem no orçamento pesa muito. O crédito excessivo pode iniciar o problema e os juros elevados funcionam como acelerador”, afirma.

Um dos sinais de alerta, segundo o economista, é quando o consumidor passa a pagar apenas o mínimo da fatura do cartão ou contrata uma nova dívida para quitar outra.

“É quando começa o ciclo de juros sobre juros de uma dívida que a renda já não consegue comportar”, diz.

Primeiro passo é listar todas as dívidas, seus saldos, parcelas e taxas de juros | FOTO: Divulgação |

Antes de pagar a dívida, é preciso preservar o básico
Para quem já acumula contas atrasadas, a orientação é começar pelo diagnóstico do orçamento, em vez de tentar quitar todas as dívidas simultaneamente.

“Na vida real, a prioridade precisa ser preservar alimentação, moradia e o transporte necessário para trabalhar. Não adianta utilizar todo o dinheiro disponível para quitar uma dívida e, logo depois, precisar recorrer novamente ao cartão para comprar comida”, orienta Assis.

O primeiro passo é listar todas as dívidas, seus saldos, parcelas e taxas de juros. Em seguida, deve-se calcular a renda líquida, descontar as despesas essenciais e identificar quanto efetivamente pode ser destinado à regularização das contas.

A partir desse diagnóstico, a recomendação é priorizar as dívidas com juros mais elevados e evitar novos compromissos enquanto o orçamento estiver desequilibrado.

Parcela menor não significa dívida mais barata
A renegociação pode ajudar a recuperar o controle financeiro, mas o economista alerta para um erro comum: analisar apenas o valor da nova parcela.

“Às vezes, uma proposta parece melhor porque alonga o pagamento, mas pode aumentar o custo final da dívida. A renegociação é vantajosa quando melhora efetivamente as condições e cria um pagamento que realmente caiba no orçamento”, explica.

A substituição de uma dívida cara, como cartão de crédito ou cheque especial, por outra modalidade de menor custo também pode ser considerada. A operação, porém, deve reduzir efetivamente o custo financeiro da dívida, e não apenas postergar o problema.

5 passos para reorganizar as dívidas
Para famílias que já enfrentam dificuldades financeiras, o economista recomenda:
1. Listar todas as dívidas, incluindo saldo, parcelas e taxas de juros;
2. Calcular a renda líquida e descontar primeiro alimentação, moradia e demais despesas indispensáveis;
3. Definir quanto realmente sobra para o pagamento das dívidas;
4. Priorizar as dívidas mais caras, especialmente aquelas com juros elevados;
5. Comparar o custo total das renegociações, e não apenas o valor da nova parcela.

A orientação é evitar novas compras parceladas enquanto o orçamento estiver desequilibrado e procurar os credores para verificar alternativas que reduzam o custo da dívida ou ofereçam condições compatíveis com a capacidade real de pagamento.

“O ponto central não é apenas quanto crédito está disponível, mas quanto esse crédito custa e se a renda da família comporta a dívida. Crédito disponível e capacidade de pagamento são duas coisas diferentes”, resume Assis.

Sair da versão mobile