Por Vitor Fernandes*
Primeiro de tudo que só coloquei a hashtag eleições para chamar atenção mesmo. Me vi rolando o dedo na tela e o algoritmo resolveu me entregar muitos conteúdos revolucionários, eu digo isso e apresento provas. Quem me conhece sabe que meu primeiro texto como jornalista há 29 anos foi sobre a banda Pink Floyd, na coluna ‘musical jovem’, do impresso do Jornal da Chapada. Aí, o que aconteceu em 1997 aconteceu de novo em 2026.
Nariz de cera enorme para falar dados que parecem assustadoramente atuais sobre um disco da banda inglesa. Lançado em 1977, em plena crise da Inglaterra, o álbum ‘Animals’, por exemplo, é o mais político conhecido do grupo. De forma escancarada na verdade! Foi Roger Waters que pegou emprestado a fábula de George Orwell do livro ‘A Revolução dos Bichos’, mas trocou o stalinismo pelo capitalismo. A sociedade não é de pessoas, é de bichos.
E porque essa ‘tese’ continua assustadoramente atual? Bom, para responder essa pergunta vou ter que pedir licença poética para explicar. Então considerem o artigo uma obra de arte. O que não é obviamente. Vamos descobrir como somos facilmente manipulados e obedientes à ordem estabelecida em uma coluna dorsal social formada por dominadores.
Inicialmente vem os ‘Cães – O predador corporativo’. Os ‘Dogs’ são os executivos, os advogados, os que vendem a alma para subir. São carismáticos, frios e vivem em matilha, até serem abandonados sozinhos.
Waters descreve a lógica deles na canção ‘Dogs’ sem rodeios. “You gotta be crazy, gotta have a real need / Gotta sleep on your toes, and when you’re on the street”.
Que traduzindo literalmente fica: “Você tem que ser louco, tem que ter uma necessidade real / Tem que ficar sempre alerta, e quando estiver na rua”.
É como se fosse o preço final: “And when you lose control, you’ll reap the harvest you have sown”. Tradução seria: “E quando você perder o controle, colherá o que semeou”.
Os ‘Dogs’ seriam a classe média alta que se acha esperta, mas morre de forma patética, corroída pela própria paranoia, sacou? Vem para mais perto. Coloca o disco para ouvir no aplicativo de música e termina de ler o artigo. Ainda tem muita política crua para comer aqui!
Pink Floyd chama os políticos de ‘Os Porcos – O poder intocável’. Em ‘Pigs (Three Different Ones)’ estão os que mandam de verdade. São os políticos, os censores morais, os magnatas, os corruptos intocáveis, os que fazem a ordem que você obedece. Roger Waters chegou a ser nominal: atacou Mary Whitehouse, a líder moralista britânica, e fez alusões a Margaret Thatcher.
O trecho “Hey you Whitehouse, ha ha charade you are. “You’re nearly a laugh, but you’re really a cry”, é um sarcasmo em tradução: “Ei, você, Whitehouse — ha, ha, que farsa você é. Você quase faz rir, mas na verdade dá vontade de chorar”.
Os porcos são retratados como sujos, gordos e hipócritas, escondidos atrás de discursos de ordem e moral, enquanto mantêm os cães trabalhando para eles. Sintetizando completamente essa prova. Eu disse que apresentaria provas. Aqui preciso abrir parênteses para falar de Mary e Thatcher. Me desculpe, não sei citar alguém e não dizer quem são e o que fizeram.
Tem que dizer que Constance Mary Whitehouse (1910–2001) era professora e ativista conservadora britânica amplamente conhecida por sua forte oposição ao liberalismo social e à suposta decadência moral da mídia no Reino Unido. Sendo que a partir de 1960, ela liderou uma cruzada nacional de censura e moralidade – que marcou a história da televisão britânica. Não são meras coincidências, são fatos!
Mas vamos seguir? A Margaret Thatcher não precisa de apresentações. Seria nossa Dilma Rousseff? De coincidência só que Thatcher foi também a primeira mulher a liderar o governo britânico. Dilma foi a primeira presidenta do Brasil. Qualquer coisa pesquisa um pouco mais sobre o assunto.
E o que falar das ‘Ovelhas – A gente’. Isso mesmo, somos nós. A massa distraída, obediente, que finge não ver. Fracasso intelectual e moral, a formiguinha choramingo para votar no inseticida. Pink Floyd gravou em ‘Animals’ a música ‘Sheep’, onde Roger Waters é quase cruel com a nossa passividade:
“Harmlessly passing your time in the grassland away / Only dimly aware of a certain unease in the air”. Sendo cantado em português fica estranho: “Passando o tempo tranquilamente na campina / Apenas vagamente ciente de uma certa inquietação no ar”.
Ovelhas são ensinadas a rezar, a votar, a seguir. A sacada genial do disco é que, diferente de Orwell, aqui as ovelhas se revoltam: ‘Bleating and babbling we fell on his neck with a scream / Wave upon wave of demented avengers’.
“Balindo e balbuciando, lançamo-nos ao seu pescoço aos gritos / Onda após onda de vingadores dementes”, em tradução. Então as ovelhas matam os cães. Mas essa ‘revolução’ dura pouco. No final da mesma música vem o aviso: “Have you heard the news? The dogs are dead / You better stay home and do as you’re told”.
“Você ouviu a notícia? Os cachorros estão mortos / É melhor você ficar em casa e fazer o que lhe mandam”. Em uma aviso evidente de que os porcos continuam no poder e são perigosos.
O disco ‘Animals’ não tem herói. É um ciclo vicioso. Começa e termina com ‘Pigs on the Wing’, duas canções de amor curtas, quase um sussurro de que só o afeto pessoal nos salva desse curral e da crueldade. E 49 anos depois, ainda estamos todos aqui: latindo, grunhindo ou balindo.
*Vitor Fernandes é jornalista

