O município de Wagner, na Chapada Diamantina, tem uma origem singular no interior da Bahia: sua formação está diretamente ligada à atuação de missionários presbiterianos norte-americanos, conectando a pequena cidade sertaneja a centros como Nova York e São Paulo. A presença desses religiosos, a partir do início do século XX, foi decisiva para transformar a região em um polo educacional e de saúde, com impactos que atravessam gerações.
A história começa em 1871, quando um grupo de missionários presbiterianos desembarcou em Salvador, ligado à mesma Junta de Missões Estrangeiras que já atuava em São Paulo e mantinha relação direta com a Universidade Mackenzie. A orientação vinha de Nova York e tinha um objetivo claro: difundir a doutrina protestante por meio da religião e da educação. Na capital baiana, o grupo fundou a igreja da Mangueira, no bairro da Mouraria, e o Colégio 2 de Julho, no Garcia.
Com o avanço do projeto missionário, a iniciativa foi interiorizada, alcançando cidades como Juazeiro, Santa Maria da Vitória e Bom Jesus da Lapa, até chegar, em 1906, a uma fazenda chamada Ponte Nova, às margens do rio Utinga, próxima a Lençóis. Mesmo após o declínio do ciclo do diamante, Lençóis ainda mantinha prestígio político e econômico, sob a influência do coronel Clementino de Matos. Nesse cenário, os presbiterianos implantaram o Instituto Ponte Nova, que se tornaria o núcleo de formação de uma nova cidade.
O crescimento em torno do instituto deu origem ao município de Wagner, batizado em homenagem ao alemão protestante Franz Wagner, figura fundamental no enfrentamento da grande seca que assolou a região por anos consecutivos. Hoje, a cidade tem cerca de 9,5 mil habitantes e é conhecida, entre outros eventos, pela tradicional Festa de Vaqueiro, realizada no mês de maio.

Além de impulsionar o surgimento da cidade, o Instituto Ponte Nova introduziu uma nova cultura educacional no interior baiano. Entre as principais inovações estava a proibição dos castigos físicos, prática comum à época.
“No Instituto Ponte Nova, apesar do seu rígido regulamento, suas normas proibiam os castigos corporais para a correção do comportamento do aluno. A professora recebia a determinação que, ao invés de castigar, deveria desenvolver suas boas tendências, ao invés de reprimir as más”, escreve Ester Fraga Nascimento, professora doutora pela PUC São Paulo, em um ensaio sobre o colégio protestante.
A disciplina escolar ultrapassava a sala de aula e organizava o cotidiano dos estudantes. O uso de uniformes era rigorosamente controlado e havia regras claras sobre comportamento e aparência. Maquiagens, acessórios e adornos eram proibidos. Meninas mantinham os cabelos presos, enquanto os meninos precisavam conservar o uniforme sempre limpo.
Segundo a pesquisadora, o modelo educacional também estabelecia funções diárias:
“Enquanto as moças eram responsáveis pela limpeza do internato, da culinária, e da lavagem de suas próprias roupas, os rapazes cuidavam dos arredores, da horta, das roças de laranja, abacaxi, banana, mandioca, feijão e arroz, movimentavam o engenho, onde produziam mel e rapadura”.
Ex-aluno, professor e diretor do Instituto Ponte Nova, o reverendo Neemias Alexandre explica que o trabalho fazia parte de uma concepção educacional mais ampla.
“A escola não tinha funcionários. Quem ajudasse trabalhando tinha desconto na mensalidade. Além disso, a filosofia educacional era da antropologia bíblica, que prega a tríplice dimensão religiosa: do corpo, da alma e do espaço social onde se vive. Ou seja, era fundamental a integração no espaço onde estávamos inseridos”, conta.
Hoje com 88 anos, Neemias lembra que a formação oferecida pelo instituto atendia também a um objetivo estratégico das missões.
“O instituto nasce a partir da necessidade que os presbiterianos entendem de que não havia mão de obra para tocar seus projetos no interior da Bahia. Então, eles resolvem formar estas pessoas e depois utilizá-las em outras missões de evangelização”, diz.
Educação, saúde e um novo modo de viver no sertão
Vinte anos após a criação do Instituto Ponte Nova, os missionários inauguraram outro equipamento essencial para a consolidação de Wagner como polo regional: o Grace Memorial Hospital, fundado em 1926 pelo médico missionário Wagner Welcome Wood, em homenagem à esposa falecida. O hospital se tornou referência no tratamento de catarata, acidentes e infecções bacteriológicas, atendendo pacientes de toda a Chapada Diamantina.

Sem concorrência na região, o hospital e o instituto fortaleceram o papel de Wagner como centro educacional e de saúde. Nos anos seguintes, foram implantadas uma escola de enfermagem e um auditório, batizado de James Wright, ampliando ainda mais a infraestrutura local.
Em 1971, ano em que se completariam cem anos da chegada dos presbiterianos à Bahia, os missionários anunciaram a saída de Wagner. Segundo Neemias Alexandre, a decisão não foi motivada por conflitos.
“Apesar dos missionários reclamarem muito que não recebiam apoio do governo e que o projeto era muito custoso, o principal motivo para encerrar a empreitada foi que eles entenderam que tinham cumprido a missão por aqui. Tinham impactado fortemente a região, mudado o modo de vida, a alimentação, a crença e a forma de pensar. Isso deixou um legado muito grande, que até hoje repercute. Eles partiram para outros desafios, com missões em países asiáticos”.
Após a saída dos missionários, o Instituto Ponte Nova passou para o controle do Estado e, posteriormente, da Prefeitura. Já o Grace Memorial Hospital ficou sob responsabilidade da iniciativa privada, em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS). Mais de cinco décadas depois, os equipamentos seguem como prova concreta da importância histórica dos presbiterianos na formação social, educacional e econômica de Wagner e de toda a Chapada Diamantina. Jornal da Chapada com informações do portal Correio.




















































