Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre Utinga, na Chapada Diamantina, revela que a origem do município passou por um episódio dramático de destruição e reconstrução no início do século XX.
A região onde hoje está Utinga começou como um arraial chamado “Palha”, que servia de pouso para viajantes que transitavam pela Chapada durante o auge das minas de diamante em Lençóis e Estiva. Com o tempo, porém, o pequeno povoado tornou-se refúgio de malfeitores, o que levou o governo da época a intervir e ordenar sua destruição. Em 1905, o arraial foi incendiado.
Somente depois do episódio o local foi reconstruído em outra área, cedida por fazendeiros locais. O novo núcleo recebeu inicialmente o nome de Bela Vista de Utinga, antes de evoluir para município. A história de um povoado incendiado e depois renascido em território diferente é parte fundamental da formação da cidade, ainda pouco conhecida por muitos moradores e visitantes.
Herança Payayá e caminhos ancestrais
Outra dimensão essencial da história de Utinga é a forte ligação com os indígenas Payayá, um dos povos originários que habitavam a área antes da colonização.
A região da atual Utinga era território tradicional dos Payayá, que ocupavam vastas áreas do interior da Bahia. Eles dominavam rotas naturais entre serras, rios e vales, caminhos que mais tarde seriam utilizados por bandeirantes, tropeiros e exploradores de diamantes.
Muitos dos trajetos usados durante o ciclo do garimpo eram, na verdade, trilhas indígenas adaptadas pelos colonizadores. Assim, parte da expansão econômica da Chapada se apoiou em rotas originalmente abertas pelos Payayá.
Atualmente, existem movimentos de retomada cultural e reconhecimento da presença Payayá na região, resgatando uma história que ficou invisibilizada por muito tempo.
Relação espiritual com as águas
Os Payayá mantinham uma relação profundamente espiritual com as águas da região onde hoje fica Utinga. A área é conhecida por possuir nascentes importantes e rios de águas muito puras.
Para o povo indígena, essas águas não eram apenas recursos naturais, mas espaços sagrados, ligados a espíritos da natureza e à própria sobrevivência da comunidade. Eles evitavam poluir ou modificar drasticamente esses locais, mantendo um forte equilíbrio ambiental.
Entre os pontos naturais que reforçam essa herança histórica está a Cachoeira do Payayá, na região de Utinga, na Chapada Diamantina. O local carrega no próprio nome a referência ao povo originário que habitava a área antes da colonização e mantém a forte ligação simbólica entre território, água e memória indígena. A presença da cachoeira reafirma a importância das nascentes e dos cursos d’água na formação histórica e cultural do município.
A região de Utinga destaca-se atualmente pela abundância hídrica dentro do semiárido baiano. Historiadores defendem que essa preservação natural ao longo do tempo também está relacionada ao modo de ocupação inicial indígena, que não promovia devastação intensa como ocorreu em outras áreas durante o ciclo do garimpo.
Algumas nascentes funcionavam ainda como pontos estratégicos de orientação territorial para os Payayá, atuando como verdadeiros marcos naturais antes mesmo de qualquer divisão oficial de terras.
Gestão atual e valorização da memória
O atual prefeito de Utinga é Átila Karaoglan (PSDB), que está à frente da gestão municipal promovendo ações culturais e de valorização da história e identidade local.
Em 2025, ele homenageou o povo Payayá no Dia Nacional dos Povos Indígenas, destacando sua contribuição histórica para a formação cultural do município e ressaltando a ligação ancestral com a terra, a água e a natureza.
A gestão também investiu em espaços culturais, como a inauguração da Casa da Cultura Otacílio Novaes, equipamento voltado à preservação da memória histórica, atividades educativas e produção artística local.
Além disso, a prefeitura realiza chamadas públicas para projetos culturais e apoia agentes culturais locais, fortalecendo iniciativas que podem incluir temas como memória indígena, tradições e identidade regional.
As ações demonstram um olhar administrativo voltado à valorização da história local inclusive a indígena e à preservação da cultura e identidade de Utinga, integrando memória, território e desenvolvimento cultural.
Jornal da Chapada
























































