O empreendedorismo feminino tem ganhado cada vez mais destaque em Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, onde mulheres vêm assumindo papel de protagonismo em diferentes segmentos produtivos, da produção de vinhos e derivados da agricultura familiar à fabricação de licores e outros produtos artesanais. Em um setor historicamente associado à presença masculina, a atuação feminina vem ampliando espaço e demonstrando força na economia local.
De acordo com o estudo mais recente sobre o tema, divulgado em 2023 pelo Observatório Nacional da Indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as mulheres representam 25% da força de trabalho na indústria e já ocupam 31,8% dos cargos de liderança. Mais do que números e estatísticas, histórias de mulheres que lideram pequenos empreendimentos no município demonstram que a produção industrial também pode nascer em escala local e gerar impacto significativo na economia regional. Um exemplo desse protagonismo é a Vinícola Santa Maria, fundada pelas irmãs Laura Oliveira e Mayra Nunes.
O empreendimento surgiu a partir de um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que analisou a viabilidade do cultivo de uvas viníferas na região, cujas condições climáticas apresentam semelhanças com Bordeaux, na França. O que começou como experimento científico se transformou em um negócio familiar. Oficializada em 2020, com investimento inicial de cerca de R$ 50 mil, a vinícola produz até sete mil garrafas por ano em dois ciclos de safra e, atualmente, investe também no turismo do vinho, com visitas guiadas, receptivo e eventos voltados à diversificação do negócio.
“Foi um mundo totalmente novo para nós. Não fazíamos parte do universo do vinho, mas fomos nos apaixonando durante o estudo. Decidimos encarar o desafio”, relata Laura, destacando a participação de toda a família na condução do projeto. Ela também comenta os desafios de atuar em um setor predominantemente masculino. “Inicialmente, há um estranhamento, né? Hoje, tenho muito mais segurança. Entendo mais do negócio, sei o que ele demanda e sei o que pedir”, afirma.
O crescimento da Vinícola Santa Maria, que recebeu esse nome em referência à fé da família em Santa Maria do Ouro, assim como de outras pequenas vinícolas instaladas em Morro do Chapéu, contribuiu para colocar o município na rota do enoturismo brasileiro. O movimento tem impulsionado novos negócios e fortalecido o comércio local. “É outra cidade. Nos últimos anos, a paisagem mudou completamente. Muitos negócios novos abriram e estão abrindo”, comentou o sócio da Vinícola Sertânia, Marcos Barberino, durante encontro do setor vitivinícola realizado na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), em fevereiro.
Associativismo feminino impulsiona oportunidades no campo
Outro exemplo de liderança feminina em Morro do Chapéu é Sebastiana Figueiredo, de 64 anos, presidente da Associação Comunitária e Assistencial dos Pequenos Agropecuaristas de Mônica (Acapam). Há cerca de três anos, a entidade produz mensalmente quase 30 mil pacotes de biscoito avoador à base de tapioca por meio da agroindústria Sabor da Roça.
O empreendimento nasceu a partir de uma pequena cozinha comunitária que produzia sopas para os moradores do povoado de Mônica, localizado a 35 quilômetros da sede do município. Com recursos obtidos por meio de um edital da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), foi possível estruturar a fábrica, que atualmente oferece trabalho para 15 moradores da comunidade, a maioria mulheres. Antes disso, muitas delas dependiam de atividades extrativistas que geravam cerca de R$ 35 por semana. Hoje, a renda média chega a R$ 1.400 mensais. “Mudou radicalmente a vida dessas pessoas, temos fila de gente esperando uma vaga para trabalhar aqui”, conta Dona Aninha, como é chamada a presidente da Acapam.
O biscoito avoador da Sabor da Roça conquistou mercado e já conta com mais de 40 pontos de venda, incluindo estabelecimentos da região e cidades como Camaçari e Feira de Santana, além de presença em estados como Pernambuco e São Paulo. Utilizando matéria-prima adquirida no mercado, como ovos, óleo de soja e tapioca, a associação planeja novos investimentos, como a construção de um galinheiro e o cultivo de mandioca para reduzir custos e ampliar a produção.
“Temos um gerente que veio com experiência de vendas e conseguimos, por meio de outro edital, a contratação de uma agente de negócios. Estamos apenas começando, mas estamos de olho no futuro. Eu acredito muito no trabalho feminino”, celebra Sebastiana.
Assim como em outros segmentos produtivos, o fortalecimento do associativismo ainda representa um desafio em muitas comunidades rurais. “Não é fácil conduzir uma associação. Cada comunidade tem uma realidade diferente e muitos ainda não percebem a força do coletivo e de atuar de forma conjunta e organizada. Aqui, a luta é de todos, e o ganho também”, acrescenta.
Sabores tradicionais que se transformaram em empreendedorismo
Em outra frente do empreendedorismo feminino local, a tradição culinária também se transformou em oportunidade de negócio. Com uma receita herdada da avó, Maria Goretti Dourado manteve o costume familiar de produzir licor para as festas juninas. Com o tempo, a bebida ganhou popularidade entre amigos e familiares, que passaram a solicitar cada vez mais unidades.
“Os filhos cresceram, amigos foram chegando, veio universidade, as festas, e o licor se popularizou através deles. Os outros produtos são consequência, uma coisa puxou outra”, conta a empreendedora, conhecida como Dona Goi, que também produz geleias e doces a partir das frutas cultivadas em sua própria fazenda.
A produção é artesanal e envolve praticamente todas as etapas do processo, desde a fabricação até a embalagem e divulgação dos produtos, comercializados em diversos pontos de Morro do Chapéu. Apesar da boa procura, principalmente entre os meses de junho e dezembro, Goretti acredita que os produtos artesanais ainda não recebem o reconhecimento que merecem. Ainda assim, ela ressalta que a satisfação em trabalhar com o que gosta supera os desafios. “Se ama faça, caia de cabeça, não existe trabalho sem momentos difíceis. Devagar se vai ao longe”, aconselha.
Indústria e novos setores impulsionam economia local
O protagonismo feminino no empreendedorismo também ocorre em um município que já possui forte presença industrial. Na Chapada Diamantina, Morro do Chapéu se destaca como um dos principais polos econômicos da região. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados pelo Observatório da Indústria da Bahia, da FIEB, apontam que a indústria representa cerca de 45% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal — percentual quase duas vezes maior que o da administração pública, cenário incomum em muitos municípios baianos.
Entre os segmentos industriais com maior geração de empregos estão a construção civil e a fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos. O município também tem ganhado destaque nacional pela capacidade de geração de energia eólica. “Morro do Chapéu e região estão bem colocados para continuar sendo polo de investimentos em energia renovável, graças a fatores naturais, como o elevado potencial de ventos constantes e favoráveis à geração de energia eólica. Além disso, já conta com grandes projetos implantados, infraestrutura de transmissão e apoio de importantes agentes econômicos do setor”, de acordo com Natali Paz, economista do Observatório da Indústria da Bahia.
Além do setor industrial, o turismo tem se consolidado como um importante vetor de desenvolvimento. O município avançou no Mapa do Turismo Brasileiro e vem ampliando iniciativas ligadas ao ecoturismo e ao enoturismo, impulsionado pelo crescimento das vinícolas na região. Projetos de qualificação e iniciativas de turismo inteligente também estão em andamento para fortalecer a infraestrutura e ampliar a oferta de serviços.
Apoio institucional fortalece pequenas indústrias
Mesmo sem possuir unidade física instalada em Morro do Chapéu, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) mantém serviços de apoio voltados para empresas de diferentes regiões. Por meio da Coordenação de Pequenas e Médias Indústrias (PMI), a entidade oferece o Núcleo de Acesso ao Crédito (NAC), que presta assessoria gratuita e personalizada para facilitar a obtenção de financiamentos e orientar empresários na escolha das melhores linhas de crédito. “O atendimento é regionalizado, com presença em dez municípios do estado”, explica o coordenador Bruno Kieckhofer.
Na área de regularização, a Gerência de Desenvolvimento Sustentável (GDS) atua no apoio a processos ambientais e sanitários, além de orientar empresas na emissão do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), garantindo conformidade legal e atuação responsável.
Já para empresas que buscam expansão internacional, o Centro Internacional de Negócios (CIN) auxilia nos processos de exportação, licenças e identificação de novos mercados, preparando indústrias locais para competir globalmente.
A Gerência de Relações Sindicais (GRS) trabalha no fortalecimento do associativismo empresarial, incentivando a integração das empresas aos sindicatos do setor e ampliando a representatividade institucional das indústrias baianas. Jornal da Chapada com informações do portal Fieb.

