As brigadas voluntárias que atuam na região da Chapada Diamantina denunciaram o que classificam como um processo contínuo de enfraquecimento e abandono por parte do Governo do Estado da Bahia. Em nota pública divulgada recentemente, os brigadistas afirmam que, enquanto o governo promove eventos e debates institucionais sobre prevenção e combate aos incêndios florestais, a realidade enfrentada pelas equipes comunitárias no território é marcada pela falta de apoio, escassez de equipamentos e ausência de políticas públicas estruturadas.
No documento, as brigadas ressaltam o papel histórico das organizações comunitárias no combate ao fogo na região. “Historicamente, são as brigadas voluntárias que chegam primeiro aos focos de incêndio. São homens e mulheres das comunidades locais que, muitas vezes com recursos próprios, enfrentam o fogo para proteger unidades de conservação, comunidades rurais e patrimônios naturais da região”, destaca um dos trechos da nota.
O trabalho dessas brigadas segue um processo organizado que começa com o monitoramento constante do território durante o período mais crítico do ano. Quando um foco de incêndio é identificado, os brigadistas realizam o deslocamento até a área afetada, fazem a avaliação da intensidade do fogo e iniciam o combate direto com o uso de abafadores, bombas costais e outras ferramentas. Em seguida, são criadas linhas de contenção para impedir o avanço das chamas, além do rescaldo da área atingida, etapa fundamental para evitar que o fogo volte a se espalhar.
Anualmente, as brigadas voluntárias conduzem um intenso trabalho de prevenção e combate aos incêndios que atingem a Chapada Diamantina, especialmente entre os meses de agosto e novembro, período marcado por clima seco e maior risco de queimadas. No entanto, os brigadistas alertam que a falta de estrutura tem dificultado cada vez mais a atuação das equipes no território. “Somos nós que estamos nas serras, nas matas e nas comunidades quando o fogo começa. Mas sem apoio, sem equipamentos e sem estrutura mínima, fica cada vez mais difícil manter esse trabalho”, apontam em outro trecho da nota.
Outro ponto lembrado pelas brigadas é que, no ano 2000, foi criado na Bahia o Comitê Interagências de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, iniciativa que reunia brigadas voluntárias, Corpo de Bombeiros, governo e sociedade civil em um esforço conjunto de prevenção e resposta aos incêndios. Esse modelo funcionou até 2013, quando foi substituído pelo programa Bahia Sem Fogo, mudança que, segundo os brigadistas, reduziu significativamente a participação das organizações comunitárias nos espaços de decisão.
Homero Vieira reforça alerta das brigadas
Presidente do Conselho Regional de Brigadas Voluntárias da Chapada Diamantina, Homero Vieira dos Santos é considerado uma das principais referências no trabalho de prevenção e combate a incêndios florestais na região. Atuando há décadas na defesa ambiental da Chapada, ele acompanha de perto a realidade enfrentada pelas brigadas comunitárias e reforça a preocupação com a redução do apoio institucional.
Para Homero, o contraste entre o discurso oficial e a realidade vivida pelos brigadistas no território tem se tornado cada vez mais evidente. “Enquanto o Estado organiza seminários e constrói narrativas institucionais, quem está na linha de frente do combate ao fogo segue enfrentando enormes dificuldades. A cada ano o apoio às brigadas voluntárias diminui”, afirma.
O brigadista também destaca que as equipes voluntárias continuam comprometidas com a proteção ambiental da Chapada Diamantina, mas alerta para os riscos do enfraquecimento dessas organizações comunitárias. “As brigadas voluntárias existem há mais de três décadas na Chapada Diamantina e sempre estiveram na linha de frente da proteção do território. Proteger a Chapada exige mais do que discursos e eventos institucionais. É preciso compromisso real com quem está todos os anos combatendo o fogo e defendendo nossos ecossistemas”, conclui Homero.
Jornal da Chapada

