Quase quatro décadas após o maior acidente radiológico do Brasil, ocorrido em Goiânia, as marcas da tragédia envolvendo o Césio-137 seguem presentes na vida das vítimas e familiares. Em entrevista ao jornalista Jackson Abrão, Lourdes das Neves Ferreira, de 74 anos, mãe de Leide das Neves Ferreira, afirmou que ainda não conseguiu superar a perda da filha.
“Ainda dói. Eu creio que vou carregar isso para o resto da minha vida. Não passa não”, desabafou. Leide, que tinha apenas 6 anos, tornou-se o principal símbolo do desastre após ser uma das vítimas fatais da contaminação.
O episódio voltou a ganhar repercussão recentemente com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, que retrata os acontecimentos de 1987. Para Lourdes, a produção ajuda a manter viva a memória da tragédia e suas consequências.
Segundo ela, muitos sobreviventes ainda enfrentam dificuldades emocionais e sociais, como solidão, depressão e dependência de medicamentos. “Muitos ficaram alcoólatras e outros dependem de remédio controlado”, relatou. Lourdes também criticou a situação enfrentada pelas vítimas em comparação com o cuidado dado ao local onde os rejeitos foram armazenados em Abadia de Goiás.
A idosa vive atualmente com recursos limitados, dependendo de uma pensão estadual e de auxílio federal. Ela recebe R$ 954, valor que, segundo relata, é insuficiente para cobrir despesas básicas e medicamentos. Parte do benefício ainda é comprometida com empréstimos, restando cerca de R$ 400 a R$ 500 por mês.
Além das dificuldades financeiras, Lourdes enfrenta problemas de saúde, como dores na coluna, hipertensão, colesterol elevado e complicações oftalmológicas. Outro desafio é a possibilidade de perder a casa onde mora, devido a atrasos no pagamento do IPTU.
Diante desse cenário, o Governo de Goiás apresentou recentemente uma proposta de reajuste nas pensões. O projeto prevê aumento para R$ 3.242 para radiolesionados com maior exposição e para R$ 1.621 aos demais beneficiários.
O acidente teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia. A cápsula contendo o material radioativo foi aberta e o pó luminoso acabou sendo distribuído entre familiares e conhecidos, sem que soubessem dos riscos.
A contaminação só foi oficialmente identificada no dia 29 de setembro daquele ano, após a substância ser levada à Vigilância Sanitária. Ao todo, mais de 112 mil pessoas foram monitoradas, com 249 casos de contaminação confirmados e 129 necessitando acompanhamento médico contínuo.
Quatro mortes foram registradas diretamente em decorrência da exposição: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza. No entanto, os impactos da tragédia vão além dos números oficiais, afetando milhares de pessoas ao longo dos anos.
Hoje, mais de mil vítimas ainda recebem atendimento no Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), enquanto cerca de 6 mil toneladas de rejeitos permanecem armazenadas em depósitos definitivos.
Aos 74 anos, Lourdes resume seu apelo em poucas palavras: deseja apenas dignidade. “Eu só quero ter um final de vida digno”, afirmou. Com informações do G1.

















































