Um ritual que atravessa gerações e se mantém envolto em silêncio, fé e mistério ganha novos olhares a partir do trabalho da fotógrafa Jéssica Mendes. Para documentar a tradição dos penitentes, ela percorreu mais de 1.300 quilômetros até comunidades rurais de Xique-Xique, onde acompanhou de perto uma das manifestações mais marcantes da religiosidade popular durante a Quaresma.
Realizada entre a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-Feira da Paixão, a prática reúne grupos de fiéis que saem durante a madrugada em procissões silenciosas. Vestidos com mortalhas brancas e com o rosto encoberto, os penitentes caminham por estradas de terra, ruas e caminhos que ligam igrejas a cemitérios, entoando cânticos conhecidos como benditos e elevando orações pelas almas dos mortos. A escuridão da noite, quebrada apenas por velas e lanternas, reforça o caráter introspectivo do ritual.
O percurso segue um trajeto simbólico, previamente definido, com paradas em locais considerados sagrados ou marcados por memórias de morte, como cruzeiros e encruzilhadas. Em cada ponto, são realizadas preces coletivas que evocam tanto a dor quanto a esperança. Em muitas comunidades, a caminhada se encerra nos cemitérios, onde velas são acesas e homenagens são feitas àqueles que partiram, fortalecendo a conexão espiritual entre vivos e mortos.
Dentro do grupo, funções específicas organizam e conduzem o rito. As chamadas ‘alimentadeiras de alma’ são responsáveis por puxar os cânticos e conduzir as rezas, abrindo caminho para os penitentes. Já os disciplinadores mantêm uma prática mais rigorosa de devoção, marcada pela autoflagelação: com cordões de couro que possuem lâminas na ponta, ferem as próprias costas como forma de penitência e expiação. Ao longo das sete estações percorridas, as vestes brancas frequentemente se tingem de sangue, materializando o sacrifício que simboliza a purificação espiritual.
As imagens produzidas por Jéssica também se estendem à paisagem do distrito de Santo Inácio, em Gentio do Ouro, incorporando ao trabalho o cenário onde o ritual acontece. O registro amplia o olhar sobre o território e ajuda a contextualizar a relação entre a prática religiosa e o ambiente em que ela se mantém viva.
A experiência de vivenciar o ritual de perto, segundo a fotógrafa, é marcada por sensações intensas e difíceis de traduzir. “É difícil fotografar porque o ritual acontece em um completo breu. a atmosfera de mistério devoção toma conta do trajeto e não tem como não se arrepiar dos pés a cabeça. do começo até o fim dessa procissão”, relata.
Realizada de forma discreta ao longo dos anos, a manifestação quase não é acompanhada por pessoas de fora e segue com poucos registros visuais. Essa ausência de documentação torna o ensaio ainda mais significativo, ao revelar com sensibilidade uma tradição que atravessa gerações e mantém vivos elementos de fé, memória e identidade cultural na Chapada Diamantina.
Jornal da Chapada

