Conhecida como a primeira cidade planejada do Brasil, Rio de Contas reúne credenciais que a colocariam naturalmente entre os principais destinos turísticos da Bahia. Com um centro histórico preservado, clima diferenciado e paisagens que figuram entre as mais belas da Chapada Diamantina, o município possui um patrimônio que muitos lugares tentam construir artificialmente. Ainda assim, a realidade econômica da cidade está longe de acompanhar o potencial que carrega. Entre entraves administrativos, dificuldades de infraestrutura e oportunidades desperdiçadas, Rio de Contas segue enfrentando obstáculos para transformar sua riqueza histórica em desenvolvimento duradouro.
Fundada em 1724 por determinação da Coroa Portuguesa, a cidade nasceu para controlar a circulação do ouro extraído na região e garantir a arrecadação de impostos para Portugal. Planejada desde a origem, com ruas amplas, praças organizadas e construções de pedra, tornou-se um dos mais importantes núcleos urbanos do período colonial brasileiro.
Localizada a cerca de 620 quilômetros de Salvador e com pouco mais de 13 mil habitantes, Rio de Contas preserva um conjunto arquitetônico formado por 287 edificações históricas entre igrejas, casarões e monumentos públicos. O patrimônio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1980 e permanece como um dos principais ativos econômicos do município.
Apesar desse cenário favorável, a cidade enfrenta dificuldades recorrentes para consolidar o turismo como motor permanente da economia local. E parte dessas dificuldades tem relação direta com problemas administrativos que acabaram expondo fragilidades da gestão pública nos últimos anos.
Sob a administração do prefeito Célio Evangelista da Silva (PSD), Rio de Contas viveu um episódio que simboliza essas limitações. Em 2025, o município ficou de fora do apoio financeiro concedido pelo Governo da Bahia para a realização do Carnaval após não conseguir atender aos requisitos do edital devido a pendências previdenciárias. O próprio gestor admitiu que a cidade se encontrava negativada e, consequentemente, perdeu a oportunidade de acessar recursos importantes para fomentar um dos períodos mais estratégicos do calendário turístico.
A exclusão significou mais do que a perda de verba. Representou menos capacidade de promoção do destino, menor atração de visitantes e redução da movimentação econômica para comerciantes, donos de pousadas, restaurantes e trabalhadores que dependem diretamente do fluxo turístico.
Ainda assim, Rio de Contas continua atraindo visitantes graças aos atributos construídos ao longo de sua história. Situada a aproximadamente 1.200 metros de altitude, a cidade possui temperaturas mais amenas que a média nordestina e serve como ponto de partida para trilhas, montanhas e atrativos naturais que atraem praticantes de ecoturismo.
Além disso, a gastronomia local vem ganhando espaço entre os visitantes. Pequenos empreendedores têm investido na valorização de ingredientes regionais e na oferta de experiências ligadas à cultura local, criando alternativas para diversificar a economia e ampliar o tempo de permanência dos turistas.
Patrimônio histórico não basta
Apesar das qualidades reconhecidas, especialistas apontam que o principal desafio de Rio de Contas não está na falta de atrativos, mas na dificuldade de estruturar políticas permanentes capazes de transformar o turismo em uma atividade econômica mais forte e menos dependente de ações isoladas.
Um exemplo disso ocorreu em 2023, ano em que a cidade comemorou três séculos de fundação. Mesmo com toda sua relevância histórica, Rio de Contas acabou ficando temporariamente fora do Mapa do Turismo Brasileiro devido a problemas burocráticos relacionados ao envio de documentação exigida pelo sistema federal.
Embora a situação tenha sido regularizada posteriormente, o episódio gerou questionamentos sobre a capacidade institucional do município. Afinal, uma cidade reconhecida nacionalmente por seu patrimônio histórico ficou ausente de uma das principais ferramentas utilizadas para direcionar investimentos e políticas públicas para o setor turístico.
Os casos revelam uma contradição frequente. Enquanto o município possui potencial para ampliar sua presença no mercado turístico, questões administrativas acabam comprometendo oportunidades importantes de captação de recursos e fortalecimento da atividade econômica.
Os gargalos que limitam o crescimento
Além das dificuldades de gestão, empresários e moradores apontam problemas estruturais que continuam limitando o desenvolvimento local. O acesso ao município ainda é considerado um dos principais entraves para o crescimento do turismo. A longa viagem por estrada exige planejamento e muitas vezes afasta visitantes que buscam destinos mais acessíveis.
Outro desafio está relacionado à própria infraestrutura turística. Em períodos de maior movimentação, a capacidade de hospedagem e a oferta de determinados serviços nem sempre conseguem acompanhar o potencial de demanda, limitando o impacto econômico que poderia ser gerado pelo setor.
A conectividade também aparece entre as principais reclamações. Em uma era em que reservas, pagamentos, divulgação e até o trabalho remoto dependem de internet de qualidade, falhas nos serviços de telefonia e conexão acabam prejudicando tanto turistas quanto empreendedores locais.
Mesmo diante dessas limitações, iniciativas como o Encontro de Sanfoneiros demonstram a força da mobilização comunitária e o potencial econômico existente na cidade. O evento movimenta pousadas, restaurantes, artesãos, agricultores familiares e pequenos comerciantes, tornando-se uma das principais vitrines do município.
No entanto, a experiência também evidencia uma dependência preocupante de eventos pontuais para impulsionar a economia. Rio de Contas possui patrimônio histórico, identidade cultural consolidada e atrativos naturais de destaque. O que ainda falta é transformar essas qualidades em uma estratégia permanente de desenvolvimento. Sem avanços consistentes na gestão pública, na infraestrutura e na captação de investimentos, a cidade corre o risco de continuar vivendo da força de sua história enquanto enfrenta dificuldades para construir seu futuro. Jornal da Chapada com informações do portal Industria News.

