O projeto ‘Ordem Questionada’, do Coletivo Subverso das Artes, encerrou sua trajetória após oito meses de formação artística e circulação de espetáculos voltados à qualificação de artistas negros baianos. A última apresentação da peça ‘Pedaços de Mim (Fragmentos de Nós)’, no Colégio Estadual Vera Lux, em Nova Brasília, marcou o fim de um ciclo que reuniu 20 participantes em oficinas de criação, produção e gestão teatral. Como resultado do processo formativo, os espetáculos inéditos ‘Pedaços de Mim (Fragmentos de Nós)’ e ‘Pai Contra Mãe’ circularam gratuitamente por cinco bairros de Salvador e alcançaram um público estimado de 180 pessoas.
Para o participante e ator das duas peças Ahadi Oliveira, de 23 anos, a experiência foi transformadora e chegou em um momento decisivo de sua carreira artística. “Trabalhar personagens tão profundos e intensos me deu uma perspectiva viva do quão cruel a realidade pode ser, do quão involuntária e inevitável pode ser a vida de quem nasceu sem os privilégios ofertados de forma exclusiva à certas camadas sociais. Estar inserido em um projeto que falasse sobre minha vivência e me desse a oportunidade de estar levando isso para espaços educacionais me pareceu algo maravilhoso”, destaca.
Ahadi também ressalta que a iniciativa renovou sua motivação para seguir promovendo conscientização e transformação social por meio do teatro. “A importância de estar levando, não apenas arte, mas senso crítico para uma camada da sociedade a qual tem seus direitos de acesso negado é imensurável. Ter a oportunidade de dialogar com essas pessoas, que estão inseridas nos contextos de violências que as obras abordam e muitas vezes não se percebem nesses contextos, seja por cansaço ou falta de instrução, é muito satisfatório”, completa.
Depois que as cortinas se fecham
A coordenadora do Coletivo Subverso das Artes, Laura Sacramento, avalia que o projeto fortaleceu a formação dos artistas e ampliou o diálogo entre as comunidades onde circulou.
“Traçamos um percurso proveitoso ao longo do projeto, tanto o Coletivo Subverso das Artes, quanto os residentes e artistas envolvidos. O processo de formação foi importante para o nosso desenvolvimento enquanto artistas, e para a construção das peças ‘Pai Contra Mãe’ e ‘Pedaços de Mim (Fragmentos de Nós)’. Estudar dramaturgia, direção teatral, direção musical, atuação, formação de público, comunicação estratégia, cenografia e gestão teatral, nos trouxe ampliação de conhecimentos dentro da área das artes cênicas, além da noção de autonomia em gestão das próprias produções, de modo que a identidade do Subverso e do projeto se espelharam, refletindo o percurso individual de cada artista, mas sobretudo do coletivo, pensando na equipe que construímos”, afirma.
“A cada apresentação, fomos nos aperfeiçoando e, tão valioso quanto, nos reencontrando com os territórios que contam as nossas histórias. As conversas ao final das apresentações nos mostram que o projeto ‘Ordem Questionada’, constituiu seu público e, conseguiu criar diálogos com os lugares e com agentes culturais e educacionais que entendem a importância do teatro negro. Além disso, tivemos a honra de encontrar artistas comprometidas e comprometidos, aos quais fazemos agradecimentos, são eles: Gustavo Duarte, Raquel Ferreira, Ahadi Oliveira, Maíse, Rose Pereira, Maitê Araújo e Gisele Braga. Pessoas que agregaram muito ao projeto e que, para além da arte, nos apoiaram de sobremaneira”, completa Laura.
Além da formação técnica, o projeto estimulou a criação de narrativas que refletem sobre identidade, desigualdades sociais, justiça e memória histórica, levando ao palco questões atravessadas pelas vivências das comunidades participantes. As apresentações foram realizadas em espaços dos cinco territórios contemplados: o Colégio Estadual Luiz Viana, no Candeal; o Cine Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas; a Escola Municipal Makota Valdina, no Engenho Velho da Federação; o Colégio Estadual Vera Lux, em Nova Brasília; e a Escola Municipal Jardim Santo Inácio, em Santo Inácio.
“Ver os artistas e os bastidores em ação, a escola transformada, encheu de vida e potencial o imaginário de cada um de nós, professores e alunos. O Ordem Questionada vai além da apresentação de uma peça, a relevância desse projeto se dá pelo engajamento de cidadãos que sustentam seu sonho, sua criatividade, sua rotina diária e alavancam concomitantemente ações sociais, conhecimento e enchem de brilho olhos que por vezes deixam de sonhar”, avalia Claudia Urpia Rosa, Coordenadora Pedagógica da Escola Municipal Makota Valdina, no Engenho Velho da Federação.
O projeto “Ordem Questionada” foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.
























































