A Unidos de Vila Isabel escolheu o samba-enredo assinado por Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz para o Carnaval de 2027. A composição será o hino oficial do desfile que levará à Marquês de Sapucaí o enredo ‘Torto Arado: Sobre a terra há de viver sempre o mais forte’, inspirado no romance do escritor baiano Itamar Vieira Junior e que também apresenta referências culturais da Chapada Diamantina.
A definição da obra foi marcada por uma polêmica que começou na sexta-feira (11), quando a escola anunciou que faria uma junção de dois sambas finalistas para formar o hino do próximo desfile. A proposta previa utilizar o samba da parceria liderada por Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz, com a inclusão do refrão principal da composição assinada pela parceria de Paulo César Feital.
A decisão provocou críticas nas redes sociais e gerou reação de Martinho da Vila, presidente de honra da agremiação e um dos compositores da obra escolhida. O artista não concordou com a mistura das composições e manifestou o desejo de retirar seu nome da parceria.
Na manhã da última terça-feira (15), a Vila Isabel anunciou que havia voltado atrás. A diretoria desfez a fusão anunciada anteriormente e confirmou que levará para a avenida o samba de Martinho da Vila e seus parceiros na íntegra, encerrando a controvérsia em torno da escolha musical.
Samba de Martinho conduzirá enredo inspirado em Torto Arado
Com a decisão, a composição de Martinho da Vila será responsável por embalar o desfile inspirado em Torto Arado, romance publicado em 2019. A obra acompanha a trajetória das irmãs Bibiana e Belonísia, cujas vidas são atravessadas por um acidente na infância e por conflitos relacionados à terra, ao trabalho rural e à desigualdade social.
O livro de Itamar Vieira Junior também aborda ancestralidade, resistência e a relação das comunidades do sertão baiano com suas tradições. Esses elementos serão adaptados para a linguagem do Carnaval, aproximando a literatura da Bahia da força narrativa e musical das escolas de samba do Rio de Janeiro.
A escolha do enredo cria ainda uma oportunidade de destacar territórios e manifestações culturais do interior baiano. Entre as referências que deverão aparecer na apresentação está a Chapada Diamantina, região marcada por sua diversidade histórica, religiosa e cultural.
Jarê de Lençóis será uma das referências culturais do desfile
Um dos pontos de destaque relacionados à Chapada Diamantina será o Jarê, manifestação religiosa muito presente no município de Lençóis. A tradição reúne influências de matrizes africana e indígena, além de elementos do catolicismo popular, e é preservada por meio de rituais, cânticos, danças e conhecimentos transmitidos entre gerações.
A presença do Jarê no Carnaval carioca poderá ampliar a visibilidade de uma expressão religiosa característica da Chapada e ainda pouco conhecida por parte do público nacional. A representação também contribui para valorizar a diversidade cultural da Bahia e dar espaço às tradições mantidas por comunidades do interior.
Para Lençóis e para a Chapada Diamantina, a participação no desfile representa uma oportunidade de reconhecimento em uma das maiores vitrines culturais do país. A exposição poderá despertar o interesse de novos públicos pela história da região, por suas manifestações religiosas e pelos saberes tradicionais que fazem parte da identidade chapadeira.
Com o samba de Martinho da Vila oficialmente escolhido, a Unidos de Vila Isabel prepara uma apresentação que reunirá música, literatura, ancestralidade e cultura popular. Em 2027, a escola levará à Sapucaí a narrativa de Torto Arado, com elementos que também poderão projetar a Chapada Diamantina e o Jarê para além dos limites da Bahia.
Jornal da Chapada

