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#Chapada: Mapa arqueológico interativo resgata vestígios do antigo garimpo e revela histórias preservadas nas trilhas da região chapadeira

Roy Funch durante visita a uma toca de garimpeiro no Córrego da Mandassaia, em Lençóis | FOTO: Reprodução/Eco |

Ruínas de pedra, antigas tocas e estruturas deixadas pelos garimpeiros ajudam a contar uma parte importante da história da Chapada Diamantina, na Bahia. Esses vestígios, espalhados por trilhas e áreas naturais da região, ganharam um novo meio de registro com um mapa arqueológico interativo organizado pelo biólogo Roy Funch, de 77 anos, que há cerca de quatro décadas pesquisa e percorre as serras do território.

A iniciativa reúne informações sobre locais ligados ao antigo garimpo manual de diamantes e permite que moradores, pesquisadores, guias e visitantes conheçam melhor essas marcas históricas. A ferramenta também contribui para ampliar o olhar sobre a Chapada, mostrando que, além das cachoeiras, grutas e montanhas, a região guarda sinais de modos de vida que influenciaram sua formação.

“O que mais chamou minha atenção foi a natureza e os garimpeiros”, lembra Roy, que chegou ao Brasil na década de 1970. Durante suas caminhadas, ele costumava acompanhar trabalhadores que buscavam diamantes nas serras e passou a registrar os lugares por onde passavam. “Eu só andava com eles, sabia os nomes de cada um, muito não são mais vivos”, recorda.

A trajetória do biólogo também se relaciona à conservação ambiental. Roy participou das articulações que antecederam a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, e foi o primeiro diretor da unidade. Ao longo dos anos, os registros de campo se transformaram em um acervo sobre os vestígios do garimpo, que hoje pode ser consultado digitalmente.

O garimpeiro e artesão Nino em frente à Toca de Laudelino, abrigo rochoso em Lençóis abandonado por volta de 1962 | FOTO: Reprodução/Acervo Chapada Diamantina |

Um acervo digital sobre a história da região
A construção do mapa começou com o registro de caminhos e lugares conhecidos pelos garimpeiros que acompanhavam Roy. Com o aumento da quantidade de informações e fotografias, o projeto foi ampliado até se tornar uma plataforma digital, capaz de reunir detalhes que seriam difíceis de organizar em uma publicação impressa.

“Inicialmente, meu objetivo era só fazer um mapa da serra. Os garimpeiros que eu conhecia ajudaram e comecei a botar os nomes. Depois que o GPS ficou disponível, andava o parque e o projeto cresceu. Até que eu achei que tinha informações suficientes para fazer uma coisa melhor, um mapa mais preciso. No papel seria inviável, era muita informação. No digital se tornou possível”, relata Roy.

Disponível gratuitamente no site da Fundação Chapada Diamantina, o mapa funciona integrado ao Google Maps e apresenta pontos identificados por cores, conforme as categorias de vestígios arqueológicos catalogados. Ao selecionar uma localização, o usuário pode consultar fotografias e informações detalhadas dos locais, incluindo medidas de estruturas, em português e inglês. O projeto também recebe sugestões e novas imagens por meio de um formulário on-line, acompanhadas pelo próprio organizador.

A história registrada na ferramenta remete ao ciclo dos diamantes, iniciado em 1844, quando foram descobertas pedras preciosas em Mucugê. A atividade atraiu trabalhadores e aventureiros, impulsionou o crescimento de cidades como Lençóis e Andaraí e deixou marcas na arquitetura, na economia e na cultura regional. Com o declínio da exploração, provocado pela escassez das pedras e pela concorrência internacional, parte dessa história permaneceu inscrita na paisagem.

A criação do Parque Nacional, em 1985, estabeleceu uma nova etapa de proteção ambiental na região, e a extração mineral passou a ser proibida na área protegida. Décadas depois, os vestígios do garimpo continuam despertando interesse como fontes de informação sobre a ocupação humana e as transformações vividas pela Chapada.

Turismo e memória caminham pelas mesmas trilhas
O mapa também pode contribuir para experiências turísticas voltadas à história e à cultura local. Para a diretora-geral do Guia de Viagem Chapada Diamantina, Branca Resende, conhecer os vestígios do garimpo permite ampliar a compreensão sobre o território e reforçar a importância de sua conservação.

“O turismo de conhecimento é um dos tipos de roteiro da Chapada Diamantina. Aqui a pessoa viajante e curiosa vai encontrar um território vasto e encantador. Um mapa como esse tem centenas de motivos para preservar e conservar esses territórios tão ricos”, comenta Branca.

O garimpeiro Vadinho (ao centro) diante das estruturas de pedra da Toca de Benedito, em Gobira, ao sul de Mucugê, em 2002 | FOTO: Reprodução/Acervo Chapada Diamantina |

A condutora de turismo Bárbara Nicole, de 26 anos, utiliza o material para aprofundar o conhecimento sobre locais que já fazem parte de seus roteiros. Nascida em Lençóis e atuando como guia desde 2017, ela também carrega uma ligação familiar com essa história, já que seu avô trabalhou no garimpo.

“Meu avô foi garimpeiro, então essa história sempre fez parte da minha família e da minha relação com a Chapada. Para mim, esse mapa é quase um relicário dessa história”, conta.

Em seus percursos, Bárbara encontra marcas da antiga atividade em pontos como a Cachoeira do Sossego, o Parque da Muritiba e o Mixila. Ela avalia que a ferramenta ajuda a transformar estruturas e ruínas em elementos de interpretação histórica durante as caminhadas.

“Acho interessante usar esse mapa como uma ferramenta para contar histórias durante as caminhadas. Em vez de olhar a Chapada Diamantina somente como um lugar de cachoeiras e paisagens bonitas, conseguimos mostrar também as marcas deixadas pelo ciclo do garimpo e entender um pouco melhor como esse território foi ocupado e transformado”, argumenta.

Embora ofereça informações complementares, o mapa não substitui a experiência dos guias e condutores que conhecem as trilhas e suas particularidades. A proposta é acrescentar contexto histórico aos passeios e ajudar os visitantes a reconhecer o significado dos vestígios encontrados pelo caminho.

Assim, registros reunidos ao longo de décadas ajudam a manter viva a memória dos garimpeiros e de uma atividade que deixou marcas profundas na história da Chapada Diamantina. Jornal da Chapada com informações do portal Eco.

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