As paisagens que hoje encantam visitantes na região chapadeira escondem uma história muito mais antiga do que suas cachoeiras, cavernas e poços de águas azuis. Há milhões de anos, partes dessa região ficaram submersas sob as águas de antigos mares, e os vestígios desse passado continuam registrados nas rochas, segundo estudos geológicos.
A história está preservada em camadas de rochas sedimentares, que funcionam como arquivos naturais da evolução da Terra. Pesquisas sobre a geologia da Chapada Diamantina identificaram registros de diferentes ambientes de deposição, incluindo mares, planícies de maré, rios, deltas e desertos. Isso indica que a região passou por transformações profundas, com paisagens muito diferentes das atuais.
Entre as evidências encontradas estão as chamadas ‘ripple marks’, marcas de ondulação que podem se formar quando ondas ou correntes movimentam sedimentos no fundo de ambientes aquáticos. Quando essas estruturas são soterradas e preservadas durante processos geológicos, elas ajudam os pesquisadores a reconstruir as condições existentes no passado.

Mas o que essa história tem a ver com os poços de águas cristalinas que hoje atraem turistas? A relação está na formação geológica da região. Embora os antigos mares tenham deixado vestígios nas rochas, isso não significa que a água dos poços atuais seja a mesma que existia nesses ambientes há milhões de anos. Os lagos de hoje são abastecidos por sistemas hídricos naturais, enquanto as rochas guardam registros das transformações ocorridas ao longo do tempo.
O Poço Encantado, localizado em Itaetê, é um exemplo da riqueza geológica da região. O lago subterrâneo fica dentro de uma caverna formada em rocha calcária e chama a atenção pela transparência da água e pela tonalidade azul intensificada quando a luz solar alcança o interior da cavidade em determinadas épocas do ano.

O Poço Azul, em Nova Redenção, também se destaca pela transparência da água. Já na região de Iraquara, cavernas como a Lapa Doce revelam outros aspectos da paisagem subterrânea. Em áreas de rochas solúveis, a água pode dissolver lentamente o material e contribuir para a abertura de cavidades e galerias ao longo de períodos prolongados.

Esses fenômenos, porém, não aconteceram todos da mesma maneira nem necessariamente na mesma época. A história geológica da região é formada por diferentes processos, que incluem a deposição de sedimentos, a movimentação da água, alterações na crosta terrestre e a erosão.
É justamente essa combinação que torna a região chapadeira importante para a ciência. Ao analisar as camadas rochosas e as estruturas preservadas nelas, os pesquisadores conseguem identificar sinais de antigos ambientes e compreender como o território baiano adquiriu parte das características que apresenta hoje.
Assim, por trás das paisagens que parecem intocadas pelo tempo, há registros de mares antigos e de outros ambientes que desapareceram há muito tempo. Embora a água dos poços atuais não seja simplesmente água oceânica preservada desde aquele período, as rochas e as formações subterrâneas ajudam a contar uma história que começou muito antes de esses cenários se tornarem destinos turísticos.
Jornal da Chapada


