Conversas em um grupo de aplicativo de mensagens trouxeram à tona uma denúncia de possível assédio eleitoral contra trabalhadores do comércio de Jacobina, no norte da Bahia. Empresários e apoiadores políticos do município teriam articulado a identificação e a demissão de funcionários que declararam voto ou manifestaram apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A mobilização ocorria no grupo denominado ‘DIJ – Direita Independente de Jacobina’, que reúne mais de 250 participantes e é formado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo capturas de tela que circularam nas redes sociais, integrantes compartilhavam nomes de trabalhadores e discutiam medidas para afastar empregados por suas posições políticas.
Entre os conteúdos divulgados também aparece uma proposta para que comerciantes petistas coloquem bandeiras do PT em destaque nos estabelecimentos. Em outro registro, um áudio atribuído a Gabriel Sobral defende a demissão em massa de funcionários que tenham opiniões políticas contrárias às dos patrões.
“Não adianta ter pessoas que trabalham em sua empresa, mas são contrários aos patrões. Então estamos fazendo uma campanha para uma demissão em massa”, afirma um trecho da gravação.
Outro nome apontado entre os participantes ativos do grupo é o do médico Rafael Mesquita (PL), que disputou uma vaga de deputado estadual no último pleito. Ele recebeu 5.617 votos e atualmente ocupa a condição de suplente na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA).
A divulgação das conversas provocou repercussão nas redes sociais e levantou questionamentos sobre a conduta de empresários diante das escolhas políticas de seus funcionários.
Pressão política no trabalho pode configurar prática ilegal
O assédio eleitoral ocorre quando empregadores ou pessoas em posição de poder utilizam ameaças, constrangimentos ou promessas de benefícios para interferir na escolha política dos trabalhadores. A prática pode envolver exigência de apoio a candidatos, pressão para revelar o voto e ameaças de demissão motivadas por posicionamentos partidários.
Esse tipo de conduta contraria a liberdade de consciência e de voto garantida pela Constituição Federal. A legislação trabalhista também proíbe discriminação por motivos políticos na contratação e na manutenção do emprego. Dependendo das circunstâncias, o assédio eleitoral pode gerar responsabilização trabalhista, civil e criminal, além de consequências na Justiça Eleitoral.
Em Jacobina, uma eventual prática de demissões motivadas por divergências políticas pode ultrapassar os prejuízos individuais e atingir a economia local. O comércio depende da confiança entre empresários, trabalhadores e consumidores.
A associação de estabelecimentos a práticas discriminatórias pode comprometer sua reputação, provocar reações de clientes e criar um ambiente de insegurança para profissionais que dependem do emprego.
Trabalhadores que sofrerem ameaças ou discriminação por suas escolhas políticas podem guardar mensagens, áudios e outros registros e procurar o Ministério Público do Trabalho (MPT) ou os canais da Justiça Eleitoral. A apuração dos fatos é necessária para esclarecer a participação dos envolvidos e verificar se houve pressão ou desligamentos motivados por posicionamento partidário.
Jornal da Chapada

