Uma cabaça transformada em espaço simbólico para guardar histórias, memórias e saberes. É a partir dessa imagem que nasce o projeto “Igbawá: As histórias que devemos guardar”, iniciativa que será realizada em Valente, no território do Sisal, com atividades dedicadas às crianças de escolas públicas e ao público infantil da Biblioteca Municipal, localizada no Centro Cultural da cidade.
Idealizado pela artista e educadora valentense Silvânia Cerqueira, o projeto promoverá oficinas de contação de histórias, escrita criativa e teatro de formas animadas, tendo como ponto de partida obras de autores negros e indígenas e os saberes construídos e transmitidos por meio da oralidade.
As duas sessões de contação de histórias estão previstas para os dias 18 e 19 de novembro de 2026, durante o mês da Consciência Negra. Os horários ainda serão definidos e divulgados pelos perfis @coletivoventre e @escreverammeunome no Instagram, onde o público poderá acompanhar as atualizações da programação.
Na proposta, a Igbawá — cabaça utilizada tradicionalmente como recipiente e também presente em práticas e rituais de religiões de matriz africana — ganha o significado de um cesto de leituras e narrativas. No espaço da biblioteca, ela reunirá livros de autoria negra e indígena adquiridos especialmente para o projeto.
“Igbawá é uma junção de duas palavras iorubás e remete à cabaça, símbolo também sertanejo, fruto do coité, típico da região do Sisal. Aqui, ela também assume a dimensão do ventre feminino enquanto chão de histórias”, explica Silvânia Cerqueira.
A iniciativa busca, assim, ampliar o contato das crianças com histórias, personagens, experiências e imaginários que valorizem diferentes perspectivas sobre a população negra, os povos indígenas, a ancestralidade, a natureza, os afetos e as relações comunitárias.
Literatura negra e indígena no centro da experiência
Cinco obras compõem inicialmente o cesto de leituras do projeto. Entre elas está “A África Recontada para Crianças”, de Avani Souza Silva, que apresenta às crianças histórias de países africanos de língua portuguesa e contribui para ampliar os olhares sobre o continente africano para além de representações estereotipadas.
Também integram a seleção “Kabá Darebu”, de Daniel Munduruku, obra que aproxima os leitores da relação com a natureza e dos saberes indígenas; e “Kuján e os Meninos Sabidos”, de Ailton Krenak, narrativa que provoca reflexões sobre a relação entre seres humanos, outros animais e o ambiente.
Completam a seleção “Mãos”, de Kiusam de Oliveira, que aborda afeto, cuidado e diversidade familiar a partir da história de Orion e seus pais, Paulo e Pedro; e “Ombela: a origem das chuvas”, do escritor angolano Ondjaki, narrativa sobre sentimentos, natureza e a origem da chuva.
A leitura compartilhada será um dos principais instrumentos pedagógicos da iniciativa. Além das oficinas, as duas sessões de contação de histórias serão voltadas às crianças de escolas públicas e ao público infantil da biblioteca.
Os encontros também serão espaços de escuta. As crianças poderão compartilhar, caso desejem, histórias pessoais, memórias familiares e experiências de seus próprios territórios. A proposta é colocar em circulação não apenas as narrativas presentes nos livros, mas também aquelas transmitidas entre gerações e guardadas pelas famílias e comunidades.
Histórias que também serão escritas
As crianças não serão apenas ouvintes. Um dos objetivos do projeto é estimular os participantes a produzir suas próprias narrativas a partir das experiências desenvolvidas durante as atividades.
Como resultado desse processo, será produzido um cine coletivo, reunindo imagens e textos criados a partir das histórias lidas, contadas e compartilhadas nas oficinas.
Não haverá distribuição de exemplares para todos os participantes. Alguns serão doados à Biblioteca Municipal de Valente, e outros serão destinados a sorteios.
A iniciativa foi contemplada nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal, repassados pelo Ministério da Cultura e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.

