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Pesadelo em Roraima: Sobreviventes de tragédia fogem de onça e bebem urina

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O pesadelo dessas cinco pessoas começou na manhã de 26 de outubro, domingo de eleição | FOTO: Divulgação/Anderson Teixeira/Arquivo Pessoal |

Um pequeno avião com problemas mecânicos pousa em uma área de savana no sul de Roraima, distante de qualquer sinal de civilização. Nele, além de piloto e enfermeiro, há uma mulher com problemas médicos tomando soro em uma maca, o bebê dela, com nove horas de vida, e uma mulher grávida, com a barriga de oito meses presa ao cinto de segurança. O pesadelo dessas cinco pessoas começou na manhã de 26 de outubro, domingo de eleição. Terminou com final feliz após cinco dias de sofrimento. Cansados de esperar ajuda após três dias, andaram dez quilômetros pela floresta amazônica e experimentaram momentos de pânico, dor, sede e fome. “Ninguém aguentava mais. Andamos pela mata e ficamos um dia e uma noite sem beber nem comer”, diz Marinez Barroso, 40, que sobreviveu a tudo com uma hemorragia. Foram resgatados no dia 31 de outubro, no meio da selva, debilitados e exaustos, hasteando uma bandeira improvisada com uma fralda.

POUSO NA SAVANA
A aeronave Cessna pertence ao governo estadual e é usada para remover pacientes de áreas isoladas. Ela partiu da capital para buscar a dona de casa Marinez Barroso, 40, na comunidade de Santa Maria do Boiauçú, a 250 km de Boa Vista. Marinez tinha hemorragia porque sua placenta havia ficado presa no útero após o parto. A gestante Françoisa da Silva, 24, pegou carona: tinha exames médicos na capital e levaria no colo o bebê Rian, já que a mãe dele viajaria deitada. Poucos minutos após decolar, um estrondo no motor assusta a todos. Silêncio. O piloto relata a falha e diz que pousará. Avistou uma área de lavrado, como é chamada a savana de Roraima, com campos abertos e áreas alagadas, e conseguiu aterrissar ali.

Ninguém se feriu gravemente, apesar do susto de Françoisa. “Fiquei presa pela barriga no cinto, durante algumas horas achei que tivesse perdido o bebê.” A gasolina que invadiu a aeronave fez com que todos corressem. Montaram um acampamento improvisado perto do avião, com cuidados especiais a Marinez, que ainda se hidratava com o soro. Os equipamentos usados para pedir socorro não funcionaram. O piloto tinha um GPS, que indicava a localização do grupo, mas sem recursos para aviso de emergência.

ONÇAS E URUBUS
Com alguns biscoitos e água abundante em volta, os cinco passageiros de Roraima decidiram esperar socorro no local onde o piloto conseguiu pousar. Em poucas horas, foi preciso buscar comida. Marinez Barroso, mãe do recém-nascido, e Françoisa da Silva, grávida, amamentavam o pequeno Rian, mas o leite foi escasseando. O piloto, Raimundo Nonato Lima, 56, e o enfermeiro, Anderson Teixeira, 32, saíram para buscar ajuda no dia seguinte (28). Com um GPS, localizaram uma vila a 47 km. Após algumas horas, voltaram correndo. “Uma onça nos encarou e, quando começamos a correr, já estava em nossa direção. Subimos em um buritizal e esperamos”, conta Teixeira, que só viajou porque havia trocado o plantão com um colega. Comiam folhas, flores, frutas e capim. “O que o bicho come, o homem come também”, diz Marinez.

MATA ADENTRO
Após três dias de acampamento, ela sofria cada vez mais. “O odor fétido [da placenta] começou a atrair animais, como urubus. A fome era tão grande que cogitamos usar isso como isca para atrair e abater algum bicho. Comeríamos cru, mesmo”, lembra o enfermeiro Teixeira. “Começamos a ter alucinações. Às vezes víamos uma lagoa, e era só miragem”, diz. No dia 29, deixaram um bilhete na aeronave, apontando a direção que tomariam caso alguém encontrasse a anotação. “A equipe está fraca passando fome há três dias. Por isso o motivo da saída do acampamento. Informamos mata perigosa com onça em volta”, diz um trecho do bilhete.

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No dia 30, a Força Aérea Brasileira localizou o avião a cerca de 200 km de Boa Vista | FOTO: Anderson Teixeira/Arquivo Pessoal |

Começavam as horas mais dramáticas da espera por resgate. A água que tinham acabou. Não chovia. O enfermeiro passou a ter febre. Com sede, Nonato e Teixeira beberam urina. Encontraram uma área úmida e cavaram até encontrar uma água barrenta e cheia de areia. Beberam mesmo assim. “Só me preocupava com o bebê. Na quinta [30], avisei que ainda conseguia andar, mas que no dia seguinte, não”, diz Françoisa. Caminhavam por cem metros e, exaustos, paravam dez minutos para descansar. Haviam perdido a única faca e a bolsa de guardar água. Decidiram parar de andar e abrir uma clareira.

BANDEIRA BRANCA
No dia 30, a Força Aérea Brasileira localizou o avião a cerca de 200 km de Boa Vista. Com o bilhete, foi traçada uma nova rota para a busca, que já durava quatro dias. No dia seguinte, os sobreviventes ouviram som de aeronaves. Um sargento avistou um ponto vermelho e viu alguém balançando a bandeira improvisada com uma fralda. Com um helicóptero, os sobreviventes foram içados e levados à capital. Marinez foi a primeira a ser socorrida. No hospital, sofreu uma parada cardíaca e ficou oito dias internada. Rian, que virou Rian Vitório, teve queimaduras de sol, mas recuperou-se logo.

Teixeira quase perdeu os rins e ficou três dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Nonato e Françoise não tiveram grandes complicações, apesar da desnutrição que fez sua barriga murchar: era possível, contam, ver o desenho do bebê sob sua pele. Lívia Vitória nasceu na última quinta (27) e passa bem. As causas do acidente estão sendo investigadas. O governo de Roraima diz que a aeronave passou por revisão e manutenção em outubro. Matéria extraída na íntegra do site do jornal Folha S. Paulo.

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