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#Bahia: Rombo de quase R$ 3 milhões em assistência social prescreve e ACM Neto se livra do ressarcimento aos cofres públicos de Salvador

As falhas deixadas por Neto enfrentam um novo episódio envolvendo a atual administração, comandada pelo prefeito Bruno Reis | FOTO: Reprodução/ News BA |

Em busca de um retorno a um cargo público em 2026, o ex-prefeito de Salvador e atual pré-candidato ao Governo da Bahia, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto), recentemente foi notificado pelo Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) por falhas na aplicação de recursos destinados à assistência social na capital baiana durante o último mandato dele, em 2016. Contudo, as partes envolvidas só foram notificadas em novembro de 2025.

Documentos acessados pela BNews Premium detalham irregularidades em um contrato com valor superior a R$ 3 milhões. As falhas deixadas por Neto enfrentam um novo episódio envolvendo a atual administração, comandada pelo prefeito Bruno Reis (União Brasil), aliado político do ex-prefeito. Mas, até o momento, não há punição aos envolvidos.

O diagnóstico aconteceu após o TCE-BA instaurar uma tomada de contas especial visando apurar a aplicação dos recursos do Fundo Estadual de Assistência Social (FEAS), transferido pela Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDH), ao município de Salvador em 2016, mesmo ano em que Neto foi reeleito.

Os recursos tinham como finalidade a execução de ações e serviços de Assistência Social Continuada, especificamente do Benefício Eventual da Proteção Social Básica e Especial, no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Conforme o Plano de Ação, os atendimentos deveriam ter sido efetivamente realizados naquele ano por meio da rede socioassistencial do município.

Conforme o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Governo Federal, os benefícios eventuais do SUAS são destinados a famílias em vulnerabilidade social e tem como foco oferecer “dinheiro, bens ou serviços para garantir dignidade e autonomia” daquele grupo.

Em seu relatório de auditoria, o TCE-BA aponta que houve falhas presentes na apresentação da prestação de contas do município como: ausência de documentos fiscais, bem como contratos e aditivos pagos com recursos públicos sem a devida comprovação.

Confira abaixo a tabela que detalha os gastos inicialmente previstos, os valores adicionais destinados a cada categoria e os saldos não comprovados:

Tabela detalha os impactos ao erário público durante a gestão de ACM Neto, cujo desfecho ocorreu apenas no fim de 2025 | FOTO: Reprodução |

Do total de R$ 3 milhões previstos no contrato de assistência social para o município, as despesas não comprovadas somaram mais R$ 2,8 milhões, (R$ 2.815.207,65), ou seja, aproximadamente, 93,84% do valor transferido não houve documentação que comprobatória sobre sua aplicação.

“O Relatório Final emitido pelo FEAS, datado de 07/08/2018 (Ref. 3480654-72), concluiu que o processo de Prestação de Contas referente ao Plano de Ação n° 336/2016 não atendeu integralmente ao conjunto de apontamentos encaminhados pelo FEAS, por meio dos ofícios nºs 747, 919 e 994, datados de 25/10/2017, 04/12/2017 e 26/12/2017, respectivamente (Ref.3480648-45/49)”, aponta trecho da auditoria do TCE.

Ninguém pagará a conta
Diante dos apontamentos identificados pelo tribunal estadual, a gestão do atual prefeito Bruno Reis que, à época, era vice-prefeito de ACM Neto, deveria arcar com os valores apontados. Ao todo, foi detectado um rombo inicial de R$ 1.287.271,38 aos cofres públicos.

Contudo, em agosto de 2024, o montante foi atualizado para R$ 1.862.739,36, conforme correção monetária baseada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por fim, o valor foi novamente atualizado em dezembro de 2024, alcançando R$ 1.898.380,68.

Apesar do elevado valor que deveria retornar aos cofres públicos, o prazo legal para a continuidade do processo, de cinco anos a partir da primeira notificação ao gestor, já se esgotou. Além disso, a notificação foi enviada ao município de Salvador, e não diretamente ao ex-prefeito, não tendo, portanto, efeito para reabrir ou interromper esse prazo.

Nesse contexto, o Tribunal reconheceu a prescrição do caso, ou seja, o prazo legal para responsabilizar os envolvidos foi ultrapassado e, com isso, ninguém será obrigado a arcar com os valores apontados.

“Quanto à imputação de débito e aplicação de multa, esta auditoria, em alinhamento com as decisões do Supremo Tribunal Federal e com base no art. 3º, II, e 4º, I e parágrafo único, da Resolução nº 74/2023 deste TCE, entende que houve a prescrição, considerando o decurso de mais de sete anos entre o prazo da apresentação da prestação de contas (2017) e a abertura da Tomada de Contas (2024), sem adoção de medidas tempestivas para apuração das supostas irregularidades”, pontua o tribunal de contas estadual.

O relatório também recomenda que a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social adote medidas administrativas para garantir maior agilidade e eficiência, nos próximos Planos de Ação e instrumentos semelhantes, nos processos de fiscalização e análise das prestações de contas.

O documento ressalta ainda que, nos casos de inadimplência ou de não regularização das contas, deve ser promovida a instauração dos procedimentos cabíveis, conforme as normas vigentes, respeitando os prazos e ritos previstos na legislação. Ademais, o tribunal também notificou ACM Neto e Bruno Reis diante das citações no processo.

O que dizem os envolvidos
A reportagem da BNews Premium entrou em contato com a assessoria de ACM Neto, que informou que o ex-prefeito foi notificado da decisão durante o recesso de fim de ano. Ainda segundo a comunicação dele, os esclarecimentos e documentos necessários serão apresentados ao Tribunal de Contas do Estado dentro do prazo legal.

Será demonstrada a completa regularidade na aplicação dos recursos repassados pelo Estado da Bahia no âmbito do mesmo convênio, que já foi analisado pelo TCE-BA em relação aos exercícios de 2014 e 2015. Nestas ocasiões, após a apresentação dos devidos esclarecimentos, os apontamentos foram afastados e as contas aprovadas, demonstrando-se a ausência de qualquer irregularidade”, continuou a assessoria de ACM Neto.
Em relação ao convênio de 2016, a assessoria do ex-prefeito informou que “será comprovada a correta aplicação dos recursos públicos, sem que tenha havido qualquer prejuízo ao erário”.

A reportagem também procurou a Prefeitura de Salvador e a SJDH, mas, até o momento, ambos os órgãos não se posicionaram sobre o caso. O espaço segue aberto para manifestações.

Assistência Social
A BNews Premium buscou dados para traçar um raio X da população em situação de vulnerabilidade social em Salvador. Os dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UF-MG), revelam que, em 2025, Salvador apareceu como a quinta capital do país com o maior contingente de pessoas em situação de rua. Ao todo, 10.025 famílias viviam nessa condição na capital baiana.

O município baiano ficou atrás apenas de São Paulo (96.220), Rio de Janeiro (21.764), Belo Horizonte (14.454) e Fortaleza (10.045). Os dados ainda revelam que o crescimento desse contingente vem sendo observado de forma contínua ao longo nos últimos anos. O levantamento da UF-MG considera pessoas em situação de rua registradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).

Entre 2016 e 2025, o número de pessoas em situação de rua na capital baiana aumentou de forma expressiva | FOTO: Reprodução/ Ascom MPBA |

Em 2016, ano de reeleição do então prefeito ACM Neto, Salvador registrava 918 pessoas em situação de rua registradas no CadÚnico. Anos depois, em 2021, já durante a gestão do sucessor Bruno Reis, os dados indicam um aumento expressivo da população em situação de vulnerabilidade social na capital baiana. Nesse período, o número de pessoas vivendo nas ruas chegou a 4.259.

Quanto ao perfil dessa população, os dados apontam predominância masculina. Em Salvador, em 2021, cerca de 3.297 pessoas em situação de rua eram homens, o que corresponde a 77,41% dos casos, enquanto as mulheres representavam 22,59%.

Os dados também revelam o contingente de idosos vivendo em situação de rua em Salvador. Em 2016, dos 918 pessoas registrados nessa condição, 45 eram idosos, o equivalente a 4,9%. Já em 2021, entre as 4.259 pessoas em situação de rua, 242 eram idosos.

No mesmo intervalo, o Brasil também apresentou crescimento significativo. Em 2016, o país registrava cerca de 73.874 pessoas em situação de rua, das quais 7.027 estavam concentradas na região Nordeste. Já em 2021, esse número saltou para 158.057 em todo o território nacional, sendo 20.801 no Nordeste. Jornal da Chapada com informações do portal BNews.

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