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#Opinião: Chapada Diamantina revela protagonismo crescente de vice-prefeitos na política municipal e nas sucessões administrativas

Vice-prefeitos de municípios chapadeiros têm ganhado protagonismo e se consolidado como nomes naturais na sucessão municipal | FOTO: Montagem do JC |

Por Deninha Fernandes*

Nos municípios da Chapada Diamantina, a figura do vice-prefeito tem passado por uma transformação silenciosa, porém significativa. Tradicionalmente visto como o auxiliar do prefeito na gestão administrativa, responsável por substituir o titular em casos de viagens, licenças ou outras ausências, o cargo tem ganhado uma nova dimensão política. Cada vez mais, o vice tem se consolidado como um sucessor natural dentro das administrações municipais.

É claro que, pela legislação, o vice-prefeito sempre esteve na linha direta de sucessão em situações como renúncia, afastamento ou vacância do cargo. No entanto, o que se observa hoje em diversas cidades chapadeiras vai além do papel formal. Muitos vices têm participado ativamente da gestão, dividindo responsabilidades, acompanhando ações administrativas e se envolvendo nas decisões do dia a dia. Essa atuação mais próxima tem ampliado a visibilidade política desses nomes e, consequentemente, fortalecido suas chances de se tornarem prefeitos no futuro.

Durante muito tempo, a cultura política repetia frases como “vice não fala”, “vice é figurante” ou até mesmo “vice é zero à esquerda”. Particularmente, discordo dessa visão generalizada. Embora existam casos em que o cargo realmente acaba sendo pouco utilizado, a realidade recente mostra uma mudança importante. Nos últimos anos, o vice-prefeito passou a ocupar um espaço mais estratégico na política baiana, especialmente na Chapada Diamantina, onde parcerias bem-sucedidas entre prefeitos e vices têm resultado em continuidade administrativa.

Átila Karaoglan utilizou a experiência política adquirida como vice-prefeito para administrar Utinga, agora à frente do município como prefeito eleito | FOTO: Reprodução |

Um exemplo claro dessa dinâmica é o do advogado Átila Karaoglan (PSDB), do município de Utinga. Durante dois mandatos, ele atuou como vice-prefeito ao lado de Joyuson Vieira, gestor frequentemente lembrado como um dos melhores prefeitos da história do município e também uma das referências administrativas da Chapada. A parceria política foi tão consolidada que Átila acabou sendo eleito prefeito, levando consigo uma experiência construída nos bastidores da gestão. O período como vice serviu, na prática, como uma escola política que hoje se reflete em ações administrativas voltadas para áreas como saúde, educação e infraestrutura.

O prefeito Sávio Bulcão já se destacava como um político participativo quando atuava como vice-prefeito de Boa Vista do Tupim | FOTO: Reprodução |

Outro caso que ilustra bem esse fenômeno é o de Sávio Bulcão (PSDB), atual prefeito de Boa Vista do Tupim. Quando ainda era vice-prefeito, ele construiu uma relação de proximidade com a população e atuou ao lado do então gestor Helder Lopes Campos, o conhecido Dinho de Boa Vista, uma das lideranças políticas mais respeitadas da região. Ainda no período em que ocupava a vice-prefeitura, Savinho, como é popularmente chamado, já se destacava pela postura participativa, ouvindo moradores, acompanhando demandas e contribuindo com opiniões firmes dentro da administração. Não por acaso, acabou sendo escolhido como sucessor político.

A lista de exemplos não para por aí. Em Mucugê, por exemplo, Leandro Bomfim (PSDB), conhecido como Leandro Profeta, tem ganhado visibilidade política ao lado da prefeita Ana Medrado (PSB). Na minha avaliação pessoal, trata-se de um nome que pode se tornar uma importante liderança política no município nos próximos anos.

Cristian Santana é visto como um nome forte para suceder Nixon Duarte na prefeitura de Iaçu | FOTO: Reprodução |

Outro vice que merece destaque é Cristian Santana (MDB), de Iaçu, parceiro do prefeito Nixon Duarte (PSD). Quem acompanha a política local percebe que Cristian está sempre presente em atividades administrativas, inaugurações de obras e reuniões institucionais. Ele faz questão de participar da gestão de forma ativa e demonstra não aceitar o papel de mero figurante na política municipal.

Em Lençóis também é possível observar uma parceria semelhante. A prefeita Vanessa Senna (PSD) frequentemente aparece ao lado do vice-prefeito Marcos Vinícius (PSD), conhecido como Kiko. Essa presença conjunta em atividades administrativas reforça a ideia de uma gestão compartilhada, algo que tem se tornado cada vez mais comum em diversos municípios da região.

Kiko Potência atua de forma ativa nas atividades administrativas ao lado da prefeita Vanessa Senna em Lençóis | FOTO: Reprodução |

O debate sobre vice na política estadual
Quando ampliamos o olhar para a política estadual, a importância da escolha do vice também se torna evidente. A formação das chapas para a disputa pelo Governo da Bahia tem provocado debates intensos nos bastidores políticos, especialmente sobre quem ocupará a posição de vice.

No grupo do governador Jerônimo Rodrigues (PT), por exemplo, a escolha ainda gera discussões. Na minha opinião, um nome que poderia ser considerado é o de Geraldinho, ligado ao MDB de Geddel Vieira Lima. Trata-se de um grupo político com peso considerável tanto na capital quanto em diversas regiões do estado, o que poderia representar um reforço estratégico para a chapa governista.

Alguns podem argumentar que Geraldinho teve um desempenho fraco na disputa pela prefeitura de Salvador. No entanto, há quem defenda que ele acabou sendo prejudicado por circunstâncias políticas dentro da própria base aliada. Muitos observadores apontam que o PT tem dificuldades históricas em transferir votos para candidatos de outras legendas, o que teria influenciado diretamente naquele resultado eleitoral.

Outro elemento que chama atenção nesse processo é a disputa de influência dentro do próprio grupo governista. Nos bastidores, comenta-se que lideranças como Rui Costa e Jaques Wagner protagonizam uma espécie de “queda de braço” sobre decisões estratégicas do partido na Bahia. Na minha visão, essa disputa de egos pode acabar prejudicando a construção de uma chapa mais equilibrada para a eleição que definirá os rumos do estado.

Nesse contexto, também chama atenção a postura do próprio governador Jerônimo Rodrigues, que, para alguns analistas, tem demonstrado pouca autonomia nas decisões políticas mais importantes. Em um momento decisivo, seria esperado que o chefe do Executivo estadual tivesse um papel mais claro na condução dessas articulações.

Do lado da oposição, liderada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), o cenário parece um pouco mais definido. Tudo indica que o escolhido para compor a chapa como vice seja o prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP). Embora existam outras possibilidades, como o nome do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo (União), ou até lideranças ligadas ao agronegócio, a tendência aponta para essa composição.

No caso de José Ronaldo, é compreensível a decisão de permanecer em Feira de Santana até o fim do mandato. Afinal, quando uma gestão apresenta resultados positivos, muitas vezes a melhor estratégia política é justamente manter a estabilidade administrativa.

De qualquer forma, a possível escolha de Zé Cocá por ACM Neto demonstra uma autonomia política que, na minha avaliação, poderia servir de exemplo para outros grupos. A definição de um vice não deve ser apenas uma questão protocolar, mas uma decisão estratégica para fortalecer uma candidatura.

No fim das contas, a palavra ‘vice’ pode até indicar uma posição imediatamente abaixo da principal. Porém, na prática política, essa função tem se mostrado muito mais relevante do que muitos imaginam. Um vice bem escolhido precisa estar alinhado com o projeto político da chapa, ter experiência administrativa e, principalmente, capacidade de diálogo com a sociedade.

Além disso, não podemos esquecer um fator essencial na política brasileira: o peso do partido e da militância que acompanha esse nome. Uma escolha equilibrada pode fazer toda a diferença em uma eleição. E, como a própria experiência recente da Chapada Diamantina demonstra, muitas vezes o vice de hoje pode muito bem ser o prefeito de amanhã.

*Deninha Fernandes é sócia-proprietária do Jornal da Chapada

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