A investigação sobre a morte da policial militar Gisele Alves Santana ganhou novos elementos após a análise de mensagens enviadas pela vítima ao marido um dia antes do crime. No conteúdo recuperado pela polícia, a soldado afirmou que ele “confundiu carinho com autoridade, amor com obediência”, em meio a conversas sobre separação.
Gisele foi encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo. O marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, foi preso preventivamente em 18 de março e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.
Inicialmente, o oficial alegou que a esposa havia cometido suicídio após uma discussão. No entanto, laudos periciais, reprodução simulada e análise de dados digitais descartaram essa versão e apontaram para homicídio.
De acordo com a Polícia Civil, o celular da vítima foi desbloqueado diversas vezes após o disparo. Registros indicam acessos às 7h47, 7h49 e 7h58, enquanto uma vizinha relatou ter ouvido o tiro por volta das 7h28. A ligação do marido para a polícia ocorreu apenas às 7h54.
Os investigadores também identificaram que mensagens foram apagadas do aparelho da vítima. Apesar disso, os conteúdos foram recuperados e mostram que Gisele manifestava intenção de se separar e ressaltava sua autonomia. No celular do tenente-coronel, no entanto, não havia registros dessas conversas.
Para a polícia, a exclusão das mensagens pode ter sido uma tentativa de sustentar a versão de que o pedido de separação partiria dele, e não da vítima.
Depoimentos colhidos ao longo da investigação apontam ainda para episódios anteriores de comportamento agressivo por parte do oficial. Testemunhas relataram situações de violência dentro do ambiente de trabalho, incluindo momentos em que ele teria segurado a vítima com força ou a pressionado contra a parede.
Outros relatos indicam atitudes consideradas controladoras e marcadas por ciúmes. Colegas afirmaram que Gisele demonstrava receio da reação do marido em situações cotidianas e que seu comportamento mudava na presença dele, tornando-se mais retraída.
Segundo o Ministério Público, as evidências reunidas indicam que o tenente-coronel teria atirado na vítima e, posteriormente, alterado a cena do crime para simular suicídio. Imagens de câmeras corporais de policiais também registraram movimentações no local que levantaram suspeitas sobre a preservação da cena.
O caso deve seguir para julgamento pelo Tribunal do Júri, por se tratar de crime doloso contra a vida. O MP também solicitou a fixação de indenização mínima de R$ 100 mil para os familiares da vítima em caso de condenação.
A defesa do acusado nega o crime, sustenta a versão de suicídio e afirma que ele tem colaborado com as investigações. O caso ocorre em um contexto de mudanças na legislação: desde 2024, o feminicídio passou a ser considerado crime autônomo, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão.
Este é apontado como o primeiro caso, desde 2015, de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso sob acusação de feminicídio contra uma integrante da própria corporação. Com informações do G1.

