A Chapada Diamantina caminha para se tornar protagonista de uma nova etapa da mineração mundial com o avanço do Projeto Ferro Verde, desenvolvido pela empresa britânica Brazil Iron nos municípios de Piatã, Abaíra e Jussiape. Em entrevista, o vice-presidente de Relações Institucionais da companhia, Emerson Souza, detalhou o empreendimento, que prevê investimento de US$ 5,7 bilhões até 2030 para unir mineração de alta tecnologia, produção industrial de baixo carbono e inovação ambiental.
O projeto vai muito além da extração de minério de ferro. A proposta da Brazil Iron é verticalizar toda a cadeia produtiva, transformando o minério extraído na Chapada Diamantina em Hot Briquetted Iron (HBI), conhecido como Ferro Verde, um insumo utilizado na produção de aço com emissões de carbono significativamente menores. O processo combina minério de alta pureza, beneficiamento industrial e o uso de energia proveniente de fontes renováveis, permitindo reduzir em até 95% as emissões de dióxido de carbono na siderurgia em comparação aos métodos tradicionais.
A escolha da Chapada Diamantina foi estratégica. A região concentra reservas de Itabirito Soft, um minério de ferro raro que representa cerca de 3% das reservas mundiais e possui elevado grau de pureza, característica considerada essencial para a fabricação do HBI. Somada ao potencial baiano de geração de energia eólica e solar, essa condição cria um ambiente favorável para uma produção industrial alinhada às exigências internacionais de descarbonização.

Tecnologia, sustentabilidade e inovação
Projetado desde sua concepção para atender aos mais modernos padrões ambientais, o empreendimento incorpora soluções pouco comuns na mineração tradicional. A operação será realizada sem barragens de rejeitos, utilizando o sistema de empilhamento a seco dos resíduos minerais. Outro diferencial será a substituição dos caminhões utilizados no transporte interno por mais de 16 quilômetros de esteiras rolantes movidas por energia limpa, reduzindo emissões, consumo de combustível e impactos operacionais.
A recuperação ambiental também ocorrerá de forma simultânea à exploração mineral. Em parceria com a empresa alemã RWE, a Brazil Iron pretende utilizar um equipamento de aproximadamente 220 metros de comprimento capaz de recompor o terreno à medida que a lavra avança, permitindo que as áreas exploradas possam voltar a ter uso agrícola em até sete anos. Os estudos ambientais foram elaborados pelo SENAI Cimatec, responsável pelo desenvolvimento do EIA/RIMA utilizado no processo de licenciamento.
Mesmo antes do início da implantação física, prevista entre o fim de 2026 e o início de 2027, o projeto já desperta interesse internacional. Segundo a empresa, toda a produção prevista para os primeiros dez anos já foi comercializada por meio de contratos de longo prazo, garantindo uma receita futura estimada em US$ 30 bilhões.
“Se nós pensarmos que ainda nem iniciamos a implementação do projeto e já houve um apetite de compra de 10 anos de produção por dois mercados distintos, isso já nos dá um sinal claro de que existe um olhar muito forte do mercado global para esse tipo de produto”, destaca Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da Brazil Iron.

Impactos econômicos para a Chapada Diamantina
Além da inovação tecnológica, o projeto promete provocar uma transformação econômica na região. A previsão é de geração de 55 mil empregos diretos e indiretos durante o pico das obras, além de uma arrecadação estimada em R$ 50 bilhões em impostos ao longo da operação. Diferentemente do modelo tradicional baseado apenas na exportação de minério bruto, a empresa pretende manter as etapas de beneficiamento no Brasil, agregando valor à produção e fortalecendo a indústria nacional.
Outro reflexo esperado está no fortalecimento da infraestrutura logística. A estratégia da Brazil Iron prevê utilizar a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul como principal rota de escoamento, mantendo também uma alternativa de conexão com a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). A expectativa é que o empreendimento impulsione investimentos, amplie oportunidades de negócios e fortaleça a economia dos municípios da Chapada Diamantina.
O projeto também acompanha a crescente demanda internacional por matérias-primas sustentáveis, impulsionada por regras ambientais mais rígidas em mercados como Europa e Japão. Para Emerson Souza, o Ferro Verde atende diretamente às necessidades da indústria automotiva, que busca reduzir a pegada de carbono em toda a cadeia produtiva.
“De nada adianta termos carros elétricos se a produção desses veículos continuar sendo feita com um aço que na sua geração elimina uma grande quantidade de gases de efeito estufa. A indústria automotiva é uma das primeiras a buscar esse produto para poder construir um carro verde legítimo, que seja elétrico na condução e neutro em carbono na sua fabricação”, pondera Emerson Souza.
Com a audiência pública prevista como uma das próximas etapas do licenciamento, a Brazil Iron avança na implantação de um empreendimento que combina mineração, industrialização e sustentabilidade. Se todas as fases forem concluídas conforme o cronograma, a Chapada Diamantina poderá se consolidar como um dos principais polos mundiais da produção de ferro verde, inserindo a Bahia no centro das discussões sobre inovação, transição energética e mineração de baixo carbono. Jornal da Chapada com informações do portal Notícias Lide.
























































