A possibilidade de expansão de data centers em Gentio do Ouro, impulsionada por projetos da empresa Serena, tem provocado preocupações sobre os efeitos desses empreendimentos para o município. Grandes estruturas destinadas ao processamento e armazenamento de dados, os centros demandam elevado consumo de energia e sistemas de refrigeração. Com cerca de 11 mil habitantes, a cidade já possui uma unidade em funcionamento e conta com 12 pedidos de conexão para novos centros, que juntos podem alcançar 270 MW de capacidade.
A expansão ocorre em uma região marcada pela forte produção de energia eólica. Gentio do Ouro possui 28 projetos eólicos ativos, e a instalação dos data centers é apresentada como uma alternativa para aproveitar o excedente de eletricidade produzido pelos parques. A Serena, responsável pelos projetos, defende que a localização dos empreendimentos favorece o aproveitamento da infraestrutura existente. Para moradores e especialistas, entretanto, a chegada das estruturas precisa ser analisada também pelos possíveis impactos ambientais, sociais e econômicos.
Os data centers são grandes consumidores de eletricidade, mas costumam gerar poucos empregos permanentes em comparação com a dimensão dos investimentos. Além disso, as estruturas podem aumentar a pressão sobre recursos naturais, especialmente água, e sobre serviços e infraestrutura de municípios de pequeno porte. “Os data centers nos interessam porque eles são consumidores de muita energia”, afirmou Paulo Guimarães, diretor-presidente da Bahiainvest.
Segundo a Serena, “o projeto está estrategicamente posicionado em uma região de sobreoferta de geração de energia elétrica, favorecendo um uso mais eficiente da infraestrutura de transmissão”. A empresa está envolvida na expansão dos empreendimentos na região, enquanto pesquisadores e moradores defendem que o excedente de energia também poderia ser destinado a outras atividades capazes de gerar benefícios permanentes para a população.
Para a pesquisadora Julia Catão Dias, o excedente energético poderia ter outras destinações. “A gente poderia direcionar esse excedente de energia para ações e iniciativas que, de fato, contribuam para o enfrentamento das crises socioambientais”, avaliou. A discussão, portanto, ultrapassa a capacidade de geração e consumo de eletricidade e envolve a forma como os recursos naturais e a infraestrutura de Gentio do Ouro serão utilizados diante de um novo ciclo de grandes empreendimentos.
Gentio do Ouro diante de um novo ciclo de empreendimentos
A experiência deixada pela expansão dos parques eólicos ajuda a explicar parte das preocupações. Na comunidade de Santo Inácio, Valmir Pereira de Carvalho relatou dificuldades no fornecimento de energia. “Na época da chuva, quando dá trovoada, tem vezes que passa até três dias [sem energia]”, contou.
A região também possui mais de 234 sítios arqueológicos reconhecidos. Durante estudos relacionados aos empreendimentos eólicos, milhares de peças foram encontradas e parte desse material foi levada para fora do município. “Nós capturamos 22 mil peças históricas. Teve ponta de flecha, raspador, pata de cavalo, porta de cerâmica, cachimbo, fogueira inteira”, relatou Carvalho. “Está tudo lá em São Paulo. Era para ter ficado aqui”, acrescentou.
O histórico também envolve mudanças no custo de vida. Carvalho contou que chegou a pagar R$ 400 de energia em uma residência sem ar-condicionado ou chuveiro elétrico. “Se eles distribuíssem para a gente, para a gente não pagar a energia, eu achava que seria uma coisa muito boa”, afirmou.
Agora, a possibilidade de uma nova expansão aumenta o receio de que Gentio do Ouro volte a receber grandes contingentes de trabalhadores e empreendimentos sem que os benefícios permaneçam de maneira proporcional na cidade. A Serena está na etapa final de licenciamento do Complexo Assuruá VI, que prevê pelo menos 91 novas torres eólicas.
A preocupação também envolve comunidades tradicionais. O complexo ocuparia aproximadamente oito quilômetros quadrados em uma serra próxima à BR-330, a cerca de quatro quilômetros da Comunidade Remanescente de Quilombo do Pacheco. Moradores rejeitaram uma proposta para instalação de estruturas no território.
Para Carivaldo Ferreira dos Santos, da Comissão Pastoral da Terra, “em regra, os contratos são muito ruins, em todos os aspectos: no jurídico, no financeiro, no político”. Damares Teixeira também afirmou que “o interesse deles era tão grande que eles fizeram muita proposta”.
Água, meio ambiente e pressão sobre o território
Os possíveis impactos não estão restritos à energia. Dois novos data centers autorizados ocupariam aproximadamente cinco hectares cada, em áreas anteriormente cobertas por vegetação nativa da Caatinga. Segundo a reportagem, os projetos foram autorizados sem o licenciamento ambiental mais rigoroso em razão da ausência de regulamentação específica quando os pedidos foram apresentados.
A água aparece entre os principais pontos de atenção. A Lagoa de Itaparica, com 24 quilômetros de extensão, está situada em área de proteção e é utilizada por comunidades para atividades como a pesca.
“É uma lagoa que requer atenção por ser um corpo d’água frágil, apesar da extensão. Ela é uma área de uma planície de inundação”, explicou Roberto Rivelino, secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Xique-Xique.
Os sistemas de refrigeração dos data centers também podem elevar a demanda por água ou energia. Pesquisadores apontaram que as altas temperaturas do Nordeste podem tornar o resfriamento dessas estruturas ainda mais exigente.
Em estudo publicado em maio de 2026, especialistas afirmaram que “durante períodos de calor, temperaturas ambientes mais elevadas podem reduzir a eficácia da rejeição de calor a seco e exigir maior potência dos ventiladores, maior potência do compressor ou outro suporte de resfriamento mecânico”.
Para o advogado Rárisson Sampaio, a análise precisa considerar o conjunto dos impactos. “Se você pauta a chegada desse tipo de empreendimento unicamente pensando em energia, já está errado o debate, porque você tem que olhar para toda a questão cumulativa, de uso de água, de impacto territorial”, afirmou.
Os moradores também demonstram preocupação com o significado dessa expansão para o futuro da cidade. “É o meu primeiro contato com essa palavra, e saber que já tem prescrito aqui para perto da gente me preocupa muito”, disse Damares Teixeira. Para ela, “a tecnologia é boa, mas muitas vezes ela prejudica também”.
O impacto econômico é outro ponto citado. Durante períodos de obras, a chegada de trabalhadores de fora aumentou a procura por imóveis e fez aluguéis que antes custavam R$ 500 ou R$ 600 chegarem a R$ 2 mil ou R$ 3 mil. “Quando a empresa estava, subiu o preço de tudo. Eles foram embora e permaneceu [caro] para a gente, o que acabou complicando”, relatou Damares.
A vereadora Claudia Oliveira avalia que uma nova expansão pode repetir esse cenário. “Se vier a expansão, certamente virá outra levada de gente de fora, porque aqui não há mão de obra qualificada”, afirmou.
Em 2025, Gentio do Ouro arrecadou R$ 27,3 milhões, enquanto as despesas locais com saúde e educação chegaram a R$ 45,9 milhões. O município recebeu R$ 62,4 milhões em transferências para cobrir despesas. Para críticos do modelo, o crescimento econômico provocado pelas obras não garante, por si só, melhorias permanentes para a população.
“Gentio do Ouro hoje era para ser a cidade dos sonhos, uma princesa. No entanto, a gente não vê isso”, afirmou Claudia Oliveira. A vereadora acrescentou: “Nós temos hoje diversos prejuízos no município por falta de organização, de orientação, de planejamento”.
A falta de oportunidades para os moradores também é apontada como um problema. Valdenir Alves de Souza afirmou que menos de dez pessoas de sua comunidade conseguiram empregos nos empreendimentos, principalmente como vigias, motoristas ou ajudantes. “Nada mudou. Entra prefeito, entra outro, é a mesma coisa”, declarou.
Diante desse cenário, a expansão dos data centers é vista pelos críticos como um possível retrocesso caso não seja acompanhada de planejamento, qualificação profissional e contrapartidas capazes de garantir retorno efetivo para Gentio do Ouro. O avanço tecnológico pode representar investimentos, mas também pode ampliar a pressão sobre água, território, infraestrutura e custo de vida.
A reportagem registrou que a Serena não respondeu aos questionamentos enviados sobre o plano de data centers. A Prefeitura de Gentio do Ouro também não respondeu às perguntas encaminhadas sobre os impactos dos empreendimentos e as possíveis melhorias para o município.Jornal da Chapada com informações do portal Intercept Brasil.

