Artista, produtor cultural, turismólogo e empreendedor, Dery Lima, nome pelo qual é conhecido Aderivaldo Lima da Silva Filho, construiu uma trajetória marcada por encontros, movimento e muitas ideias. Sua história passa pelo circo, pelos malabares, por encontros e convenções culturais e por experiências artísticas dentro e fora do Brasil. Foi no Vale do Capão, em Caeté-Açu, Palmeiras, no coração da Chapada Diamantina, que encontrou um lugar para viver, empreender e transformar algumas dessas ideias em projetos. É idealizador do Festival de Reggae do Vale do Capão – ‘Nós Somos o Mundo’ e também atua por meio da Perna de Grilo Comércio e Serviços.
Quem conhece Dery sabe que ficar parado não combina muito com ele. É capaz de começar o dia resolvendo orçamento e ofício, passar a tarde pensando em palco e terminar a noite imaginando qual será o próximo projeto. E talvez seja justamente essa inquietude que explique um pouco da sua trajetória: entre arte, cultura, turismo e empreendedorismo, está sempre criando, articulando e colocando novas ideias em movimento.
Sua atuação é pautada pelo compromisso com a cultura, pela valorização do território e pela construção de iniciativas que promovam encontros, experiências e oportunidades. Ao longo dessa caminhada, Dery vem reunindo pessoas, desenvolvendo projetos e contribuindo para fortalecer a cena cultural e turística do Vale do Capão.
Confira a entrevista completa com Dery Lima.
Jornal da Chapada — Como surgiu a ideia de fazer um Festival de Reggae no Vale do Capão? Pergunto isso porque para ter patrocínio é difícil para esses eventos alternativos em localidades rurais. Conta um pouco de como isso aconteceu.
Dery Lima — Tudo começou com uma conversa com Seu Dozinho, que Deus o tenha. Ele faz parte da história do Vale do Capão e também da história do turismo daqui. Foi uma das pessoas que, quando praticamente nem se falava em turismo no Capão, já recebia visitantes em sua própria casa.
Um dia, perto da igreja, eu estava batendo uma prosa com ele e Seu Dozinho virou para mim e falou: “Meu filho, tem que fazer um show de reggae aqui”. Eu perguntei: “Como é, Seu Dozinho?” E ele repetiu: “Tem que fazer um show de reggae pras pessoas dançar. Reggae é bom demais!”. E ainda fez aquela dancinha dele. [risos]
Na mesma hora eu respondi: “Então tá, Seu Dozinho. Eu vou fazer é um Festival de Reggae!”. E ele: “É, meu filho!”. Perguntei se ele gravaria um vídeo comigo para convidar as pessoas. Dona Miúda, esposa dele, de primeira não gostou muito da ideia: “Ele não vai gravar vídeo algum!”. [risos] Seu Dozinho então falou: “Meu filho, vai pra igreja que a gente vai gravar esse vídeo lá”. E fomos.
A gente gravou esse vídeo com Seu Dozinho e, naquele mesmo dia, começaram a aparecer as pessoas que precisávamos para fazer as gravações e construir aquele primeiro convite. Esse registro ficou guardado e pode ser encontrado no YouTube do ‘Nós Somos o Mundo’.
Depois das gravações, à tarde, fui tomar banho no Riachinho. Fiquei vendo o pôr do sol e tive um daqueles momentos em que a gente conversa profundamente com a própria mente. Alguma coisa dentro de mim dizia: “Vai. Você está preparado para fazer esse festival”.

Naquela noite sonhei com uma multidão de pessoas dançando juntas na Vila do Capão. Foi quando surgiu muito forte para mim a expressão: ‘Nós Somos o Mundo’. Na manhã seguinte fui à casa de um amigo e ele jogou o tarô para mim. As cartas foram aparecendo e, para mim, todas conversavam com aquele momento, com realização e produção. Até que veio a última carta: nela havia pessoas de mãos dadas e o nome da carta era ‘Nós Somos o Mundo’ .
Naquele instante veio tudo à minha cabeça: Seu Dozinho, o Riachinho, o sonho, a multidão dançando e as pessoas que tinham aparecido para participar das gravações. Ali eu entendi qual seria o nome. Nascia o ‘Festival de Reggae do Vale do Capão – Nós Somos o Mundo’, em 2015.
As duas primeiras edições aconteceram próximas ao meu aniversário. Uma nos dias 29 e 30 de outubro de 2015 e a outra nos dias 28 e 29 de outubro de 2016. Meu aniversário é dia 29 de outubro. Eu queria poder chegar um dia para meus filhos e meus netos e dizer: “Eu fiz um Festival de Reggae no Vale do Capão no dia do meu aniversário”.
Na segunda edição ainda aconteceu uma história inesquecível. Em 2016, quando a banda Skanibais subiu ao palco, minha companheira Ana, que estava grávida, começou a sentir as dores do parto. No meio da produção, com a praça cheia, começou a notícia de que minha filha poderia estar nascendo. No palco anunciaram: “Gente, a filha de Dery está nascendo agora!” Virou uma comoção. [risos]
No final foi um alarme falso. Ana ficou em casa descansando e eu voltei para a praça para continuar a produção. Quinze dias depois do festival, minha filha nasceu. O nome dela é ‘Céu’. Naquele período o Capão estava há cerca de quatro meses praticamente sem chuva e, quando Céu chegou, a chuva chegou junto. Eu gosto de dizer que o céu se abriu para a chegada de Céu na Terra.
Então, quando me perguntam como nasceu o ‘Nós Somos o Mundo’, não consigo contar apenas como a história de um evento. Tem Seu Dozinho, Dona Miúda, o Riachinho, um sonho, uma carta de tarô, uma multidão dançando, meu aniversário, Ana, o nascimento de Céu, a chuva e toda a comunidade.
Em 2015 foi plantada essa semente. Em 2016 ela cresceu. E agora, em 2026, dez anos depois da segunda edição, estamos reunindo novamente essa comunidade para realizar o 3º Festival de Reggae do Vale do Capão – Nós Somos o Mundo.

JC — Quais foram as maiores dificuldades para tirar o evento do papel?
Dery — A maior dificuldade sempre foi financeira. Fazer um festival gratuito envolve palco, som, iluminação, artistas, técnicos, segurança, estrutura, transporte, hospedagem, alimentação, limpeza, documentação e dezenas de outras despesas que o público muitas vezes nem imagina.
Mas existe outra dificuldade tão grande quanto o dinheiro: fazer as pessoas acreditarem na ideia antes dela existir. Quando você fala que quer realizar um festival de reggae gratuito numa pequena vila da Chapada Diamantina, muita gente acha bonito, mas existe uma distância enorme entre achar bonito e colocar a mão na massa.
Por isso cada comerciante que ajuda, cada pessoa da comunidade que participa, cada instituição que abre uma porta e cada patrocinador que acredita tem um valor enorme para nós.
JC — Conta como foi realizar a primeira edição. Quando você viu tudo montado e o público curtindo, o que você pensou? Estava com mais alguém no momento?
Dery — A primeira edição, em 2015, foi inesquecível. Quando você passa meses imaginando uma coisa e, de repente, vê o palco montado na Praça São Sebastião, as pessoas chegando, os músicos tocando e a Vila vivendo aquilo, dá uma sensação muito difícil de explicar. Eu olhava para tudo e pensava: “aconteceu”. Porque até aquele momento era uma ideia. Naquela noite virou realidade.
E eu não estava sozinho. Um festival nunca é feito por uma pessoa. Eu estava cercado pela comunidade, pelos artistas, pelos amigos e por todas as pessoas que acreditaram naquela primeira edição.
A ideia do festival nasceu de uma inquietação minha e eu tive a felicidade de idealizar, organizar e colocar aquele projeto em movimento. Mas, quando vi a praça cheia e as pessoas vivendo aquilo comigo, percebi que aquele sonho começava a ser compartilhado.
O que nasceu como uma ideia minha estava sendo abraçado pela comunidade, pelos artistas e pelo público. Talvez tenha sido ali que eu compreendi de verdade a força do nome que escolhemos: Nós Somos o Mundo.
Eu continuo sendo essa mente inquieta por trás do festival, pensando, articulando e buscando maneiras de fazê-lo acontecer, mas hoje esse sonho também pertence ao imaginário e ao desejo de muita gente que acredita nele e quer vê-lo continuar.

JC — A captação de recursos é de acordo com a programação ou o processo é inverso? Você tem a programação e apresenta aos patrocinadores?
Dery — É um pouco dos dois. A gente começa construindo um conceito artístico e uma programação desejada. A partir daí fazemos orçamento, buscamos patrocinadores, poder público, empresas e parceiros.
Só que a programação também precisa conversar com a realidade da captação. Às vezes sonhamos com uma estrutura e precisamos adaptar. Outras vezes surge um parceiro e conseguimos ampliar aquilo que estava previsto.
O mais difícil é equilibrar sonho e orçamento sem perder a essência. Na edição de 2026 estamos fazendo um trabalho muito intenso de captação, porque queremos entregar um festival bonito, seguro e profissional, mantendo aquilo que considero inegociável: o acesso gratuito ao evento.
JC — Quem são as pessoas que te ajudaram a fazer um dos festivais mais esperados da região?
Dery — Seria injusto citar apenas alguns nomes porque muita gente já colocou um tijolinho nessa construção. Tem a comunidade do Vale do Capão, comerciantes, artistas, músicos, técnicos, produtores, associações, amigos, voluntários, pessoas que ajudaram nas primeiras edições e outras que estão chegando agora.
Também temos parceiros importantes nas questões ambientais e comunitárias e o diálogo com a Prefeitura de Palmeiras e suas secretarias.
Eu costumo dizer que o festival só existe porque existe uma rede. Pode aparecer meu nome como idealizador, mas ninguém monta palco sozinho, ninguém recebe milhares de pessoas sozinho e ninguém constrói cultura sozinho. O Festival de Reggae do Vale do Capão é resultado de muitas mãos.
JC — Com essa inquietude, tem mais ideias aí na cachola? A galera pode esperar novidades para 2026? Tem alguma surpresa? Algo que pode acontecer durante o evento e que ninguém pode perder?
Dery — Ideia é justamente o que não falta! [risos] A terceira edição acontece nos dias 9, 10 e 11 de outubro de 2026, na Vila do Capão, e estamos pensando o festival como uma experiência que vai muito além do palco.
Teremos música, artistas da Chapada e de outras regiões, oficinas, dança, feira, atividades culturais, ações ambientais e diferentes momentos de encontro. Também estamos trabalhando para fortalecer cada vez mais a presença dos artistas locais e da Chapada Diamantina.
E surpresa boa a gente não conta antes, senão deixa de ser surpresa. O que posso dizer é: quem gosta de reggae tem bons motivos para estar no Vale do Capão nos dias 9, 10 e 11 de outubro.

JC — Quais são as ajudas que vocês têm da gestão local? Quer comentar?
Dery — Temos mantido diálogo com a prefeitura municipal de Palmeiras e diferentes secretarias porque um evento dessa dimensão depende de uma grande articulação.
Existem questões relacionadas à infraestrutura, saúde, trânsito, utilização dos espaços públicos, meio ambiente, segurança, limpeza e organização da Vila. A gestão pública tem um papel muito importante nesse processo.
Nosso objetivo é construir uma relação institucional cada vez mais sólida, porque o festival não beneficia somente quem está produzindo o evento. Ele movimenta hospedagens, alimentação, comércio, transporte, artesanato e diversos trabalhadores durante vários dias. Quando um evento gratuito consegue trazer pessoas para a cidade de forma organizada, a economia circula e o benefício chega a muitas famílias.
JC — A trupe do Reggae da Chapada Diamantina quer saber se o festival vai anunciar o evento de 2027? Como isso acontece? Você pensa ano após ano ou já tem uma programação?
Dery — A cabeça já está em 2027, com certeza. Uma das coisas que aprendemos é que um festival não pode começar a ser produzido poucos meses antes. Quanto mais cedo começamos a trabalhar, maiores são as possibilidades de acessar editais, buscar patrocínios e fechar atrações com planejamento.
Então, 2026 também representa uma retomada e uma preparação para aquilo que queremos construir nos próximos anos. O sonho é transformar o Festival de Reggae do Vale do Capão em um evento permanente no calendário cultural da Chapada Diamantina e da Bahia.
Queremos crescer, mas crescer com responsabilidade. Não queremos perder nossa identidade tentando simplesmente ficar maiores. Queremos continuar sendo um festival das montanhas, da comunidade e para o mundo.
JC — O festival é gratuito e independente. Como o público, os comerciantes e as empresas podem contribuir para que ele continue acontecendo?
Dery — Essa colaboração é fundamental. Quando falamos que o Festival de Reggae do Vale do Capão é gratuito, não significa que ele não tenha custos. Existe uma estrutura enorme por trás para que todo mundo possa chegar à praça e viver três dias de festival sem pagar ingresso.
Este ano temos por objetivo criar uma grande corrente de colaboração através do nosso site www.nossomosomundo.com. Lá temos a página ‘Colabore com o Reggae das Montanhas’, com o nosso QR Code e todas as informações para quem quiser contribuir diretamente com a realização do festival. Não precisa ser muito. Pode ser R$ 1, R$ 5, R$ 10, R$ 15, R$ 20 ou qualquer valor. Quem puder colaborar com mais, ajude também.
Imagine se cada pessoa que acredita no festival contribuir com apenas R$ 5. Juntos podemos levantar um recurso importante para pagar as pessoas que trabalham conosco durante o evento, ajudar nos custos de estrutura e produção e, dependendo da força dessa mobilização, possibilitar até a contratação de uma atração maior.
Os comerciantes e as empresas também podem participar através das nossas cotas de patrocínio, apoios e parcerias. E quem não puder contribuir financeiramente pode fazer algo igualmente importante: divulgue, compartilhe nosso site, mande para os amigos e ajude essa corrente a chegar cada vez mais longe.
O ‘Nós Somos o Mundo’ é um festival gratuito, independente e comunitário. Se cada um ajudar um pouquinho, juntos conseguimos fazer um grande festival.

JC — Qual é a importância da participação da comunidade do Vale do Capão na construção e na continuidade do festival?
Dery — A comunidade é o coração do festival. Sem ela, sinceramente, não faria sentido realizar o ‘Nós Somos o Mundo’ aqui. O festival acontece na praça da nossa Vila, interfere na rotina da comunidade e recebe pessoas de muitos lugares. Então precisamos construir isso junto com quem vive aqui.
Existe também um impacto econômico muito importante. Durante o festival, quem chega se hospeda, toma café, almoça, janta, compra no mercado, utiliza transporte, conhece o artesanato, visita os estabelecimentos e movimenta uma cadeia enorme de pequenos empreendedores e trabalhadores.
Mas a participação da comunidade vai além da economia. Queremos que as pessoas sintam que o festival pertence a elas. Por isso valorizamos os artistas da região, os comerciantes, as associações, as iniciativas ambientais e culturais e as pessoas que fazem parte da história do Vale do Capão.
Quanto mais a comunidade abraçar o festival, mais forte ele será e maiores serão as possibilidades de continuarmos realizando novas edições.
JC — O que o ‘Nós Somos o Mundo’ representa hoje para você, pessoalmente, depois de três edições?
Dery — Representa muita coisa. Representa persistência, amizade, cultura, música, comunidade e principalmente acreditar numa ideia mesmo quando ela parece difícil demais para acontecer.
Quando fizemos a primeira edição, em 2015, talvez eu não imaginasse tudo que esse projeto ainda iria representar na minha vida. Depois veio a segunda edição, em 2016, e agora, dez anos depois, estamos chegando à terceira edição. Então existe uma emoção muito grande nessa retomada.
Hoje eu entendo ainda mais o significado do nome ‘Nós Somos o Mundo’. Não é somente o nome de um festival. É uma forma de enxergar as coisas. Eu idealizei o festival, mas ele tornou-se nosso, de toda comunidade. Eu tive a felicidade de idealizar e ajudar a colocar essa semente no chão, mas quem faz ela crescer são muitas pessoas. Quando vejo artistas, comerciantes, moradores, parceiros e visitantes diferentes reunidos numa praça, através do reggae, percebo que aquela ideia inicial se tornou algo muito maior.
Talvez o meu maior sonho seja chegar daqui a muitos anos, olhar para a praça cheia, ver uma nova geração produzindo e participando do festival e saber que aquela semente continuou. Porque pessoas passam. Projetos que pertencem à comunidade podem permanecer. Para mim, é isso que significa ‘Nós Somos o Mundo’.

JC — Fique à vontade para falar ao público o que deixamos de perguntar e considera de suma importância!
Dery — Acho importante lembrar que quando alguém participa de um festival gratuito como o nosso, existe uma enorme corrente trabalhando para aquilo acontecer. Então quero fazer um convite não apenas para as pessoas virem ao festival, mas para participarem dessa construção.
Quem é empresário pode patrocinar. Quem tem comércio pode apoiar. Quem é artista pode fortalecer a cena. Quem é visitante pode consumir no comércio local, respeitar a comunidade e cuidar do lixo. E quem não pode contribuir financeiramente pode divulgar.
Cada pessoa pode ajudar de alguma maneira. Nos dias 9, 10 e 11 de outubro de 2026, queremos novamente olhar para a Praça São Sebastião cheia e perceber que conseguimos. Não apenas eu ou uma equipe. Nós.
Porque essa talvez seja a principal mensagem que o reggae me ensinou e que esse festival tenta carregar desde o começo: ninguém constrói nada verdadeiramente grande sozinho.
O Festival de Reggae do Vale do Capão é gratuito, comunitário e feito para aproximar pessoas.
E aproveito também para reforçar que todas as informações oficiais sobre o Festival de Reggae do Vale do Capão – Nós Somos o Mundo, incluindo programação, atrações, parcerias, ações e demais novidades, são divulgadas pelos canais oficiais do festival.
Por isso, convidamos o público a acompanhar esses canais para ter acesso às informações confirmadas e atualizadas sobre o evento. Reggae é vida. Reggae é amor. Nós Somos o Mundo.
Jornal da Chapada


