Entre os dias 24 e 27 de agosto, a Chapada Diamantina, recebeu a quarta Oficina de Intercâmbio Regional do projeto Proteção dos Insetos Polinizadores na América Latina e no Caribe (Poli-LAC), com a participação de cerca de 50 gestores públicos, supervisores e especialistas, para promover a troca de experiências sobre a conservação de insetos polinizadores e o desenvolvimento de práticas agrícolas mais sustentáveis.
O encontro, realizado anualmente, contou com visitas técnicas a quatro propriedades rurais participantes do projeto e a um meliponário parceiro em Mucugê, Livramento de Nossa Senhora e Rio de Contas. O grupo também conheceu iniciativas voltadas ao monitoramento de insetos, criação de abelhas nativas e adoção de práticas amigáveis aos polinizadores.
Implementado no âmbito da cooperação Brasil-Alemanha, o Poli-LAC também atua na Costa Rica, no México, no Peru e no Paraguai, onde a próxima oficina regional está prevista para o ano que vem. O projeto trabalha em três frentes principais: gestão do conhecimento; fortalecimento da governança e desenvolvimento de políticas públicas e instrumentos de financiamento; além do monitoramento de insetos e da implementação de Práticas Amigáveis aos Insetos Polinizadores (PAIPs).
A polinização é considerada um serviço ecossistêmico essencial para a segurança alimentar, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento econômico. Mais de 75% das culturas alimentares produzidas no mundo dependem, em alguma medida, da ação de insetos polinizadores para a formação de frutos e sementes. Entre as principais ameaças estão o uso excessivo de agrotóxicos, a perda de habitats e as mudanças climáticas.
“Essa troca de conhecimento é essencial para os países que implementam o Poli-LAC. Esperamos chegar a 2030, quando o Projeto será encerrado, com ricas experiências em cada paisagem piloto selecionada, como é Chapada Diamantina. E também esperamos ter ótimas contribuições para os Planos de Ação Nacionais da Estratégia de Biodiversidade, e soluções para além de 2030”, afirmou Andreas Gettkant, da GIZ, diretor do Poli-LAC.

Produção rural e conservação
Em Mucugê, o grupo visitou o Sítio Frutas Vermelhas, onde Uvilson Santos Oliveira cultiva morangos, mirtilos e amoras. O produtor apresentou aos participantes o funcionamento da propriedade e explicou os benefícios de manter flores nativas que crescem espontaneamente entre as linhas de cultivo.
A estratégia permite preservar recursos florais para os insetos polinizadores durante diferentes períodos do ano, inclusive quando as culturas comerciais não estão em floração. Durante a visita, os participantes também utilizaram o aplicativo FIT Count, ferramenta de ciência cidadã voltada ao monitoramento e à contagem de insetos que visitam as flores.
A atividade foi coordenada pela bióloga Marina Wolowski, da Rede Brasileira de Interação Planta Polinizador (Rebbip), responsável por ações do projeto na Chapada Diamantina.
Também em Mucugê, a propriedade Licuri Experience, administrada pelo secretário de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente do município, José Ernesto Mattos, foi apresentada como exemplo de diversificação produtiva. Em uma área de um hectare, são cultivados café, cacau, açaí e outras espécies em sistema agroflorestal.
A propriedade possui cercas vivas, jardins, entrelinhas de cultivos e utiliza bioinsumos. O produtor também introduziu caixas de quatro espécies de abelhas nativas. Segundo ele, após a implantação das colmeias, o volume de açaí colhido teria aumentado.
Na Fazenda Matos, também em Mucugê, os participantes conheceram a produção de café orgânico Igaraçu, cultivado por Tadeane Matos sem o uso de agrotóxicos. A propriedade integra o grupo de 30 produtores participantes do projeto e recebeu o diagnóstico de sustentabilidade Apoia-Melissa, desenvolvido pela Embrapa para aplicação pela equipe do Poli-LAC.
Com base no diagnóstico, Tadeane planeja ampliar cercas vivas e bordaduras de cultivos, implantar um corredor ecológico e criar abelhas nativas sem ferrão, com o objetivo de favorecer a polinização e contribuir para a qualidade da produção de café.

Maracujá e redução do uso de agrotóxicos
O maracujá também esteve entre os focos das atividades devido à expansão da cultura na região e à vulnerabilidade causada pelo fungo Fusarium oxysporum, responsável pela fusariose ou murcha do maracujazeiro. O problema está relacionado ao uso elevado de agrotóxicos por parte de produtores locais.
Na comunidade Jacaré, em Livramento de Nossa Senhora, os participantes conheceram a propriedade de Andrea de Carvalho Bonfim. A produtora está implantando um jardim para polinizadores e pretende melhorar as cercas vivas e adotar um sistema agroecológico com maior diversidade de cultivos.
Andrea também apresentou uma técnica de enxertia entre o maracujá Passiflora foetida e o maracujá azedo, utilizada por ela na região. Segundo a produtora, a técnica resulta em uma variedade mais resistente ao fungo e pode contribuir para a redução do uso de agrotóxicos.
Em Rio de Contas, a oficina passou pela propriedade de Adílio Domingos, uma das três famílias do quilombo Bananal que aderiram ao projeto. Produtor de maracujá, manga e pokã, Adílio e sua mãe, Dona Maria, estudam as práticas amigáveis aos polinizadores que deverão ser implementadas na propriedade com assistência técnica do Poli-LAC.

Abelhas nativas e educação ambiental
Ainda em Mucugê, Marcos Adriano Rocha apresentou seis espécies de abelhas nativas sem ferrão criadas no Meliponário Bee Origem, localizado no Capãozinho. O espaço comercializa e aluga colmeias para sistemas produtivos e também funciona como local de educação ambiental e imersão no tema da conservação dos polinizadores.
A programação incluiu ainda uma visita à Trilha dos Polinizadores, no Parque Municipal Sempre Viva. Criada em 2011 por meio de uma parceria entre a Prefeitura de Mucugê e docentes de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a trilha recebeu nova sinalização neste ano com apoio do Poli-LAC.
A programação cultural também fez parte da oficina. Na abertura, os participantes foram recebidos pela Filarmônica 23 de Dezembro. Ao final das visitas técnicas, o grupo acompanhou uma apresentação do Bedengó, dança de roda de origem africana que representa a identidade cultural e a resistência dos povos escravizados.

Gestores discutem políticas públicas
Durante a passagem pela região, representantes municipais, estaduais e federais, integrantes das instituições responsáveis pela implementação do projeto e financiadores participaram de uma reunião sobre governança multinível.
O encontro tratou de avanços e próximos desafios relacionados a políticas públicas, regulamentações, sensibilização da sociedade e do setor produtivo e capacitação.
A prefeita de Mucugê, Ana Medrado, destacou a importância da produção agrícola regional e da preservação dos polinizadores para a segurança alimentar.
“Aqui na região, somos importantes produtores de alimentos e temos compromisso com a segurança alimentar. Daqui saem diversos tipos de alimentos para várias regiões do Brasil. Por isso, levamos a polinização a sério e precisamos deste projeto. Estamos muito agradecidos à cooperação Brasil-Alemanha e a todos os países que estamos recebendo aqui devido ao Poli-LAC”, declarou.
O Poli-LAC é financiado pelo Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Proteção Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN), por meio da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), e cofinanciado pela União Europeia no Paraguai. O projeto integra a cooperação Brasil-Alemanha e é supervisionado pela GIZ.
No Brasil, a implementação das Práticas Amigáveis aos Insetos Polinizadores e as ações de mobilização e sensibilização das comunidades da Chapada Diamantina são conduzidas pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), sob supervisão da especialista em sanidade, inocuidade e qualidade dos alimentos Lucia Maia.


