Debaixo das serras que desenham o horizonte de Jacobina, na Chapada Norte, existe uma riqueza que ajudou a definir a história, a economia e a identidade do município. Conhecida como Cidade do Ouro, a localidade reúne uma das operações de extração do metal mais importantes do país, em uma região cuja formação geológica preservou vestígios de antigos sistemas fluviais de bilhões de anos.
A dimensão dessa riqueza aparece nos resultados da mina operada pela Pan American Silver. Em 2025, a unidade de Jacobina produziu 190,5 mil onças de ouro, o equivalente a aproximadamente 5,9 toneladas, segundo o relatório anual da companhia.
O volume ficou próximo das 196,7 mil onças registradas no ano anterior e colocou a operação baiana na liderança da produção de ouro entre as unidades da empresa naquele período, superando minas localizadas no Chile, no Peru e no Canadá.
Além da quantidade extraída, a eficiência do processamento ajuda a explicar a relevância da operação. O relatório informa que a planta de beneficiamento recuperou, em média, 95,2% do ouro contido no minério tratado. Ao longo de 2025, foram processadas cerca de 3,2 milhões de toneladas de material, que passa por diferentes etapas de tratamento até que o metal seja separado e transformado em barras destinadas ao mercado internacional.
O desempenho também depende da capacidade de identificar novas áreas mineralizadas. Sondagens realizadas anteriormente contribuíram para adicionar aproximadamente 1,2 milhão de onças de ouro aos recursos inferidos da mina, conforme os dados apresentados pela empresa. A manutenção de pesquisas geológicas e projetos de otimização indica que o planejamento da atividade não se limita à extração imediata, mas envolve a avaliação de reservas, a expansão do conhecimento sobre o subsolo e a definição de novas frentes de trabalho.

Uma riqueza formada há bilhões de anos
O diferencial de Jacobina começa na própria geologia. A região está associada ao Cráton do São Francisco e à Serra de Jacobina, onde estruturas rochosas antigas guardam depósitos de ouro formados em diferentes etapas da história geológica. Parte do metal está concentrada em conglomerados, rochas compostas por seixos e areia que, em um passado remoto, integravam antigos sistemas de rios. Com o passar de bilhões de anos, esses sedimentos foram compactados e cimentados, preservando o ouro no interior das formações rochosas.
Esse tipo de depósito é conhecido como paleoplacer. Em vez de estar restrito a rios atuais ou a depósitos superficiais, o ouro aparece incorporado a rochas consolidadas, o que exige estudos geológicos detalhados, perfurações e técnicas específicas para localizar e explorar o minério. A combinação entre a extensão das formações, a concentração do metal e as condições de extração tornou a Serra de Jacobina um território estratégico para a mineração brasileira.
A relação da cidade com o ouro, porém, antecede em muito a operação industrial moderna. A exploração mineral ganhou importância durante o período colonial, especialmente no século XVIII, quando a busca pelo metal atraiu exploradores e contribuiu para a ocupação da região. Essa trajetória ajudou a consolidar o apelido de Cidade do Ouro, presente na memória local e associado a elementos da paisagem urbana, como o Rio do Ouro, que atravessa a área central.
Empregos, tecnologia e os custos ambientais da atividade
A mineração também tem peso direto na economia de Jacobina por movimentar uma rede de fornecedores, transportadores, prestadores de serviços e estabelecimentos comerciais. No fim de 2025, a força de trabalho brasileira da Pan American Silver reunia 2.948 empregados e terceirizados, embora esse número corresponda ao conjunto das operações da empresa no país, e não exclusivamente à mina baiana. A atividade contribui para a circulação de renda e demanda serviços especializados, desde manutenção de equipamentos até alimentação, hospedagem e logística.
Parte da receita pública relacionada à extração mineral chega aos municípios por meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), conhecida como royalty da mineração. A distribuição desses recursos segue regras legais e pode contribuir para investimentos em infraestrutura, saúde, educação e outras áreas públicas.
A parcela destinada a Jacobina varia conforme a arrecadação e os critérios de distribuição, e a aplicação efetiva depende das decisões orçamentárias e da transparência na execução dos gastos. A diversificação econômica também é importante para reduzir a dependência da atividade mineral e preparar a cidade para períodos de menor produção ou para o eventual encerramento das operações.

A modernização tecnológica tem ampliado as possibilidades de monitoramento e eficiência nas minas. Sistemas digitais de controle da produção, sensores, equipamentos automatizados, modelagem tridimensional das jazidas e análises de dados podem ajudar a localizar o minério com maior precisão, planejar escavações, reduzir deslocamentos desnecessários e acompanhar as condições de segurança.
Técnicas de processamento mais eficientes também podem diminuir perdas de material e otimizar o uso de energia e água. A adoção de cada tecnologia, contudo, depende dos investimentos da empresa e das características específicas da operação.
Os ganhos de eficiência não eliminam os impactos ambientais associados à mineração. A abertura de galerias, a movimentação de grandes volumes de rocha, o consumo de água e energia e a geração de rejeitos exigem controle permanente. A atividade também pode provocar alterações no solo, fragmentação de habitats e pressão sobre os recursos hídricos, caso as medidas de prevenção e recuperação sejam insuficientes.
Em uma região conhecida por suas serras, cursos d’água e atrativos naturais, o acompanhamento da qualidade da água, a estabilidade das estruturas de disposição de rejeitos, a recuperação de áreas degradadas e a gestão de resíduos são questões centrais para avaliar a sustentabilidade da operação.
O futuro da Cidade do Ouro dependerá, portanto, de como a riqueza subterrânea será convertida em benefícios duradouros para a população. A continuidade dos investimentos em pesquisa e modernização pode prolongar a atividade econômica, mas os resultados também precisam ser avaliados pelo controle dos impactos ambientais, pela segurança dos trabalhadores e pela capacidade de transformar receitas minerais em serviços públicos e novas oportunidades de renda.
Para Jacobina, o desafio vai além de continuar extraindo ouro: envolve preservar o patrimônio natural e construir alternativas econômicas capazes de sustentar o município para além dos ciclos da mineração.
Jornal da Chapada


