A ocupação colonial da Chapada Diamantina enfrentou a resistência dos povos indígenas e de comunidades quilombolas que já habitavam o sertão baiano. Esse cenário aparece no Relatório sobre o sertão da capitania da Bahia, escrito em 1721 por Miguel Pereira da Costa, que descreveu caminhos pelo interior e registrou a presença de populações que dificultavam o avanço dos colonizadores portugueses.
Apresentado ao vice-rei Vasco Fernandes César de Menezes, o primeiro conde de Sabugosa, o documento reúne informações geográficas e relatos sobre áreas ainda pouco exploradas pela administração colonial. O manuscrito é uma referência para compreender como se deram as primeiras incursões portuguesas por territórios da Chapada.
Miguel Pereira da Costa partiu de Salvador em direção às montanhas da região e percorreu caminhos que incluíam a Serra do Sincorá e o curso de rios locais.
O percurso realizado por Miguel Pereira da Costa evidencia as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores portugueses para avançar pelo interior baiano no início do século XVIII. Além dos obstáculos naturais, como as serras, os rios e a vegetação densa, a presença de povos indígenas e comunidades quilombolas que resistiam à ocupação representava um desafio à expansão do domínio colonial.
Relatos evidenciam conflitos no sertão baiano
Em um trecho do relatório, Pereira da Costa menciona o ‘assalto do gentio’ e a existência de negros que viviam havia anos reunidos em mucambos. A expressão “gentio”, comum nos registros coloniais, era utilizada para se referir aos povos indígenas, enquanto mucambos designavam agrupamentos associados a pessoas escravizadas que resistiam ao cativeiro.
Essas referências revelam a preocupação das autoridades coloniais com a presença de populações que dificultavam a expansão portuguesa. A resistência indígena e a existência de comunidades quilombolas representavam formas de oposição ao controle territorial e à ordem imposta pelos colonizadores.
A demora na ocupação da Chapada chama atenção pela riqueza mineral da região e por sua distância de aproximadamente 400 quilômetros de Salvador. A resistência dos habitantes locais é apontada como um dos fatores que retardaram a colonização, em um processo também influenciado pelas condições geográficas e pelos interesses econômicos da Coroa.
Mais de um século depois da elaboração do relatório, a descoberta de diamantes em Mucugê, em 1844, impulsionou a ocupação mineradora e a formação das chamadas Lavras Diamantinas. A exploração mineral marcou uma nova fase da história regional, mas o território já era habitado por populações que enfrentavam o avanço colonial muito antes da chegada dos garimpeiros.
Revisitar o documento permite questionar narrativas históricas que concentram a atenção na chegada dos colonizadores e na descoberta dos diamantes. Embora escrito sob a perspectiva da administração portuguesa, o relatório também oferece pistas sobre os conflitos e as resistências que marcaram a ocupação do sertão baiano.
Jornal da Chapada

