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#Opinião: O povo foi o grande vencedor das eleições e a democracia saiu fortalecida após mobilização nacional

Lula venceu o segundo turno e garantiu um novo mandato na Presidência, em uma eleição marcada pela disputa entre projetos políticos diferentes para o futuro do Brasil | FOTO: Ricardo Stuckert |

Por Vitor Fernandes*

A mobilização popular durante o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no dia 25 de novembro, colocou em evidência a importância da democracia e da soberania popular no Brasil. Em diferentes cidades, eleitores foram às urnas para exercer o direito de escolher seus representantes, movidos não apenas por preferências partidárias, mas também pelo receio de retrocessos democráticos e pela defesa das liberdades conquistadas ao longo da história.

Quem venceu essa disputa não foi apenas um partido, uma liderança ou uma corrente ideológica. Foi a população que decidiu participar. Foi o cidadão que não costuma discutir política, mas que compreendeu a importância daquele momento. Foi quem compartilhou mensagens, conversou com familiares, mobilizou vizinhos e chamou outras pessoas para votar. Foi também quem, mesmo diante de dificuldades de locomoção, saiu de casa porque sabia que seu voto representava muito mais do que a escolha de um candidato.

Entre essas pessoas estavam idosos que viveram os anos da ditadura militar ou cresceram ouvindo as histórias de quem enfrentou aquele período. Para muitas famílias brasileiras, a lembrança da ditadura não está nos livros, mas nas ausências, nas perseguições, no medo e na dor de quem perdeu parentes sem sequer ter o direito de sepultar seus corpos. Ver pessoas idosas saindo de casa para votar carrega um significado que ultrapassa qualquer resultado eleitoral: é a expressão de um direito que não pode ser tratado como garantido para sempre.

Esses eleitores conhecem, direta ou indiretamente, o valor da liberdade. Sabem que poder discordar, organizar movimentos, criticar governantes e escolher quem ocupa o poder são direitos que precisam ser preservados. Quando discursos favoráveis à volta da ditadura ou à restrição de liberdades ganham espaço, a memória histórica deixa de ser apenas lembrança e passa a ser um alerta.

O medo de voltar ao passado
A preocupação com a possibilidade de retrocessos democráticos ajudou a mobilizar pessoas que não necessariamente se identificam com a esquerda ou com qualquer partido. A defesa da democracia não pertence a uma única corrente política. Ela diz respeito à liberdade de toda a população, inclusive daqueles que pensam de maneira diferente.

O Brasil conhece as consequências de um regime autoritário. Durante a ditadura militar, a repressão política, a censura e as violações de direitos atingiram pessoas de diferentes setores da sociedade. Por isso, defender a democracia significa também preservar a memória das vítimas e impedir que a violência política seja normalizada ou que a supressão de direitos seja apresentada como solução para os problemas do país.

A soberania popular está justamente na capacidade de a população decidir seus próprios caminhos sem coerção. O voto é uma das expressões mais importantes dessa soberania, pois permite que a sociedade escolha seus representantes e altere os rumos do governo de maneira pacífica.

Não se trata de afirmar que todos os eleitores votaram pelos mesmos motivos. Cada pessoa tem sua história, suas prioridades e suas convicções. Mas, para uma parcela da população, a defesa das instituições democráticas e o receio de uma volta ao autoritarismo tiveram peso na decisão de comparecer às urnas.

Outro momento que chamou a atenção foi a manifestação de agradecimento de parte do público a André Janones. Entre os eleitores, a lembrança do deputado foi acompanhada por demonstrações de reconhecimento e apoio, em meio à mobilização em defesa da democracia. A reação também evidenciou como a participação política vai além das lideranças partidárias e ganha força nas ruas, nas conversas e nas manifestações espontâneas da população.

Salvador e o direito de chegar à urna

Na Bahia, a discussão sobre democracia também passou pelas dificuldades registradas na circulação de ônibus durante o segundo turno. Em Salvador, os problemas no transporte público provocaram questionamentos sobre as condições oferecidas aos eleitores para chegar aos locais de votação.

O episódio levantou uma questão fundamental: de que adianta garantir o direito ao voto se o cidadão enfrenta obstáculos para exercê-lo? O acesso às urnas precisa ser assegurado a todos, independentemente de renda, idade, condição física ou preferência política.

As circunstâncias da redução da frota e as responsabilidades dos envolvidos precisam ser apuradas pelas autoridades competentes. A gravidade do tema exige transparência e investigação, porque o transporte público, especialmente em um dia de eleição, não pode se transformar em barreira ao exercício da cidadania.

A democracia não se limita à abertura das seções eleitorais. Ela também depende de condições reais para que as pessoas consigam votar. O direito precisa existir na lei e ser respeitado na prática.

As instituições precisam responder à sociedade
A atuação da Justiça Eleitoral durante o segundo turno também provocou questionamentos. Diante dos relatos de dificuldades no transporte, houve uma decisão para ampliar o horário de votação em determinadas seções que ainda estavam abertas. A medida gerou críticas de Flávio Bolsonaro, que anunciou a intenção de contestar o resultado e pedir a anulação do pleito.

Qualquer candidato pode recorrer à Justiça pelos meios legais. Entretanto, contestar o resultado exige argumentos jurídicos e provas, e não apenas insatisfação com as decisões tomadas durante o processo eleitoral.

Ao mesmo tempo, as instituições precisam agir com rapidez e transparência diante de situações que possam comprometer o exercício do voto. A demora em responder a problemas concretos alimenta desconfiança e aumenta a tensão política. Cabe às autoridades esclarecer o que aconteceu, apresentar os fundamentos de suas decisões e apurar eventuais irregularidades.

A soberania popular exige que o resultado das urnas seja tratado com responsabilidade e que denúncias sejam examinadas conforme a lei e sem morosidade. A confiança democrática não depende de impedir questionamentos, mas de garantir que eles sejam resolvidos por procedimentos legítimos, com provas e respeito às instituições.

A democracia não pertence aos políticos
É comum que, depois de uma eleição, partidos e lideranças tentem concentrar os méritos do resultado. Mas a participação popular não pode ser reduzida à estratégia de campanha de uma legenda ou ao desempenho de seus dirigentes.

A mobilização de pessoas comuns mostra que a política não se resume aos gabinetes, aos palanques ou às reuniões partidárias. Ela também acontece nas conversas de família, nas mensagens compartilhadas entre amigos, nos bairros e nas decisões individuais de quem resolve sair de casa para votar. Até mesmo em um simples barzinho de esquina!

O papel das lideranças é relevante, mas nenhuma delas é dona da vontade popular. Os votos pertencem aos cidadãos que os depositam nas urnas, e a soberania pertence ao povo brasileiro.

Por isso, a democracia precisa continuar depois da eleição. É necessário cobrar promessas, fiscalizar os governantes, defender os serviços públicos e exigir que os direitos constitucionais sejam respeitados. A mesma população que escolhe seus representantes deve ter voz nas decisões que afetam sua vida cotidiana.

A participação dos idosos destaca o valor histórico do direito de escolher os governantes, especialmente para quem acompanhou as transformações políticas do Brasil | FOTO: Renata Vasconcellos |

O voto como memória, direito e compromisso
A imagem de pessoas idosas se preparando para votar, enfrentando dificuldades e comparecendo às urnas tem um significado que merece ser reconhecido. Para quem conheceu um país sem as mesmas garantias democráticas de hoje, exercer esse direito pode representar a afirmação de que a liberdade não deve ser tratada como algo descartável.

Cada eleitor tem seus próprios motivos para votar. Mas a possibilidade de escolher, discordar e participar sem medo é uma conquista coletiva, construída por gerações que enfrentaram períodos de repressão e lutaram pela redemocratização.

A democracia brasileira ainda enfrenta desafios, e uma eleição, por si só, não resolve os problemas sociais, econômicos ou institucionais do país. Seu valor está em permitir que as divergências sejam resolvidas pelo voto, pelo debate público e pelo respeito à lei, sem violência ou imposição autoritária.

No fim, a maior força de uma democracia está na população que se recusa a abrir mão de seus direitos. Está nos jovens que começam a participar da vida política, nos trabalhadores que conciliam suas obrigações com o voto e nos idosos que carregam a memória de tempos difíceis e continuam exercendo sua cidadania.

A democracia não é propriedade de Lula, de qualquer partido ou de qualquer liderança. É um direito do povo brasileiro. E a soberania popular se manifesta justamente quando cada cidadão pode escolher seu futuro sem medo, sem coerção e sem abrir mão da própria liberdade.

*Vitor Fernandes é jornalista e editor do Jornal da Chapada desde sua existência

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