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#Entrevista: Curadora da Feira Literária de Mucugê, Ester Figueiredo fala sobre a concepção e percurso do evento cultural

A professora Ester Figueiredo destaca a escritora homenageada, a premiada Conceição Evaristo, que prestigiará todo o evento | FOTO: Divulgação |

Nesta quinta-feira, dia 16 de agosto, começa na Chapada Diamantina a terceira edição da Feira Literária de Mucugê (Fligê), evento que este ano coloca em protagonismo mulheres negras escritoras, com o tema ‘Literatura e Resistência: a vida nos rastros da palavra’. Em entrevista, a professora e curadora da Fligê, Ester Figueiredo, fala ao Jornal da Chapada sobre a concepção da feira e seu percurso ao longo desses anos, além de destacar a escritora homenageada, a premiada Conceição Evaristo, que prestigiará todo o evento.

Jornal da Chapada – Professora Ester, como surgiu a Fligê? Nos conte um pouco da história da feira.
Ester Figueiredo – A Feira Literária de Mucugê teve sua edição inaugural no ano de 2016 e se materializou como projeto cultural a partir da intenção de interiorizar a literatura, como evento cultural, para o interior da Bahia, mais especificamente na região turística e de preservação ambiental do Parque Nacional da Chapada Diamantina.

Concebida originalmente por pessoas que se denominam como Coletivo Lavra – Literatura, Artes visuais e outras tantas Realidades Abstratas – artistas, educadores, produtores culturais, professores, moradores do município de Mucugê e outros municípios, congregam-se com o objetivo de difundir a produção literária, propagar a literatura brasileira em diversas vertentes e formatos, integrando a comunidade local na produção do conhecimento literário.

Não é fácil responder o como surgiu, porque a ideia e a intenção de realizar sempre se fizeram presentes em diversos momentos de conversa, desse grupo de amizade, mas no ano de 2016, com apoio de parcerias federal e estadual, além do envolvimento do município, enquanto poder público municipal, setor de comércio e educação, foi possível perspectivar a continuidade da proposta da Fligê como evento anual.

Por meio de projetos concebidos pelo Coletivo Lavra e Instituto Incluso, a Fligê potencializa as manifestações culturais da Chapada Diamantina ativando a participação de comunidades locais e o encontro com renomados autores e escritores de obras literárias. Para a sua realização, a Fligê conta com apoio institucional e contrapartida financeira do Governo do Estado da Bahia, do Ministério da Cultura do Brasil e de parcerias locais no formato de apoio cultural.

Jornal da Chapada – Qual a proposta da Feira Literária de Mucugê?
Ester Figueiredo – A proposta geral da Fligê, já até adiantei um pouco, mas a cada ano definimos uma temática e a partir dessa definição organizamos a grade de programação, buscando atender diferentes públicos para formação de público leitor, realizando a leitura em diferentes suportes e, por isso, a Fligê tem a arte literária como foco central, em diálogo com o cinema, a música, o conhecimento popular… Enfim, concebida como um território da leitura, a feira assume a educação literária como direito à formação humana que coloca em discussão o acesso ao livro e a literatura à diferentes públicos.

Buscamos, a diversificação de públicos para a fruição do texto literário e do livro enquanto objeto cultural para distintos segmentos etários – infantil, jovem, adulto e idoso – a fim de garantir o direito à leitura como formação humana, estética e cidadã. Cada edição traz na sua concepção uma ação educativa envolvendo as escolas públicas da cidade, mobilizando professores, diretores e alunos da rede de ensino com o objetivo de promover e incentivar a leitura, aqui, relacionada diretamente para a prática da cidadania.

Jornal da Chapada – Qual a importância do tema de 2018, Literatura e Resistência?
Ester Figueiredo – O tema desta terceira edição, Literatura e Resistência: a vida nos rastros da palavra, se definiu devido a constatação de que a literatura, nas suas manifestações artísticas, é expressão dos problemas que afligem o humano, quer na sua dimensão intersubjetiva, como social. Nos afligimos com situações de restrição da liberdade, de fragilidades democráticas, de revelação dos fascismos cotidianos e a literatura, como arte libertária, nos humaniza, nos desloca para revelar essas ideologias.

Não existe literatura sem ideologia nos espaços da Fligê. Não há segmentação em quem formula e quem participa. Todos participam, e em cada todos há um propósito coletivo de, no encontro com o livro – e aqui chamo livro toda a estética que nos chega por meio do oralizado, do visualizado, do tocado, do ouvido e do sentido nos espaços da Fligê, somar a mais um no reconhecimento da potência da palavra, na sua criação literária, para denunciar e transformar mundos e pessoas.

Jornal da Chapada – Então, porque homenagear Conceição Evaristo?
Ester Figueiredo – A definição do tema e a homenagem desta edição muito se deve a necessidade de revelar a ausência das escritoras negras no mercado editorial, bem como a necessidade de que essas mulheres escritoras encontram de criar seus próprios canais de divulgação de sua arte, sua escrita e seu lugar de produção cultural.

Conceição Evaristo, nossa escritora homenageada, é uma síntese desse momento: sua voz literária foi apresentada pela primeira vez, enquanto voz pública, no Quilombhoje, coletivo de escritores negros. Sua produção, já ocorreu após toda uma trajetória de sobrevivência, exercendo papeis diversos.

Sua afirmação como escritora, se assim podemos nos referir, mesmo em um mundo de palavras e não de livros, como ela nos diz “cresci rodeada de palavras”, palavras de mulheres cozinheiras, lavadeiras, trabalhadoras, sempre foi em busca do livro. Hoje, esse livro é a literatura, não como armadura, mas como metáforas de afetos para superação e vivências de novos formas de ver e fazer no mundo.

Jornal da Chapada – Quais os destaques da programação desse ano?
Ester Figueiredo – Como destaque, nosso recorte, é para a Conceição Evaristo, que estará conosco durante toda a Fligê, em momentos diversos, interagindo com crianças, adultos e idosos, todo os perfis etários da feira, sendo “abraçada” por outras mulheres incríveis, escritoras baianas… É o nosso destaque, mas a programação está imperdível.

Tudo circula em torno da obra de Conceição. Escritora, escritores, artistas, pesquisadores, professores e público geral realizam esse tributo à Conceição. A Fligê 2018 está imperdível, programação diversa, intensa, potente, provocativa e formativa! Fica o nosso convite para virem celebrar conosco a vida e a obra de Conceição Evaristo e seu grito de resistência.

Jornal da Chapada

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