Um estudo divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica aponta que o Ceará concentrou 76% do desmatamento de vegetação de restinga registrado no bioma Mata Atlântica entre 2023 e 2024. No período, foram perdidos 453 hectares desse ecossistema, sendo a maior parte da supressão registrada no território cearense.
Intitulado Restinga sob pressão – Análise da supressão da vegetação costeira da Mata Atlântica no litoral do Ceará, o relatório reúne dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, produzido pela Fundação em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além de apurações em campo conduzidas pela Agência de Notícias Eco Nordeste.
Somente em 2024, o Ceará registrou 345 hectares de restinga desmatados. Entre 2022 e 2024, a perda acumulada chegou a 1.401 hectares. Embora o estado lidere esse processo, o estudo alerta que o cenário reflete riscos que podem atingir todo o litoral da Mata Atlântica, especialmente diante da expansão imobiliária, turismo intensivo, avanço de atividades agropecuárias e mudanças nas regras de licenciamento ambiental.
A restinga é um ecossistema típico das áreas litorâneas e se desenvolve sobre solos arenosos próximos ao mar. Integrante da Mata Atlântica, abriga espécies vegetais e animais adaptadas ao ambiente costeiro e sustenta modos de vida tradicionais. Além disso, desempenha funções importantes para a estabilidade do litoral, como a fixação de dunas, proteção de aquíferos e redução de impactos de eventos climáticos extremos.
Segundo Luís Fernando Guedes Pinto, a destruição desse ecossistema compromete a capacidade de adaptação climática do país. Ele afirma que a restinga oferece serviços ambientais essenciais para a proteção da costa e das populações que vivem nessas áreas.
As visitas realizadas no litoral cearense identificaram dois principais vetores de pressão sobre a vegetação de restinga: grandes empreendimentos imobiliários, inclusive em áreas próximas a Unidades de Conservação, e o avanço da agricultura sobre áreas de vegetação nativa. Em vários pontos também foram registrados desmatamentos sem sinalização de licenciamento ambiental.
Para Andréa Camurça, a situação reflete um processo histórico de invisibilização do território e das comunidades que vivem no litoral. Ela destaca que a restinga raramente aparece no debate público, apesar de sua importância ambiental e social.
O estudo também alerta para o enfraquecimento da proteção legal da Mata Atlântica após a entrada em vigor da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, em fevereiro de 2026. De acordo com Malu Ribeiro, a flexibilização das regras e a transferência de responsabilidades para municípios sem estrutura técnica adequada podem ampliar a supressão de ecossistemas sensíveis como a restinga.
A pesquisa conclui que a continuidade do desmatamento desse ecossistema compromete políticas de adaptação climática, conservação da biodiversidade e justiça socioambiental. O relatório aponta como medidas necessárias o fim imediato do desmatamento, a preservação dos remanescentes, a restauração de áreas degradadas e o fortalecimento da fiscalização ambiental.
A investigação de campo realizada pela Eco Nordeste ocorreu nos municípios de Cruz, Camocim e Aquiraz, onde foram observados trechos de restinga afetados pela supressão. A equipe também ouviu moradores e lideranças locais para compreender como o avanço da ocupação do litoral tem afetado comunidades e ecossistemas.
Durante a apuração, a jornalista Alice Sales destacou o contraste entre áreas preservadas e trechos já desmatados, apontando que a falta de conhecimento sobre a importância da restinga contribui para a aceitação da retirada da vegetação em nome de empreendimentos e promessas de desenvolvimento. Com informações de assessoria.



















































