Por Guilma Gottschall Soares*
Ao longo da minha trajetória como mulher, advogada, ex-prefeita e militante na defesa dos direitos das mulheres percebi que a violência de gênero quase nunca surge de forma repentina. Ela costuma ser gradual, silenciosa e, muitas vezes, invisibilizada até alcançar consequências irreversíveis.
Também relata que antes do crime ocupar as manchetes, geralmente já existiam sinais: o controle excessivo, humilhações, ameaças, isolamento social e agressões psicológicas. Na maioria das vezes, o feminicídio não surge de forma repentina; ele é resultado de um processo contínuo de violência e dominação – que vai se desenvolvendo gradativamente dentro das relações.
Inicialmente aparecem comportamentos que, infelizmente, ainda são romantizados ou minimizados socialmente: ciúme excessivo, vigilância constante, controle sobre roupas, amizades, redes sociais, horários e escolhas pessoais. Em seguida surgem as humilhações, desqualificação da mulher, ataques à autoestima e tentativas constantes de fazê-la acreditar que perdeu sua autonomia e capacidade de decisão.
Paralelamente ocorre o isolamento progressivo. A mulher é afastada da família, amigos e da sua rede de apoio, tornando-se emocionalmente mais vulnerável e dependente do agressor. As ameaças passam a integrar o cotidiano. O medo se instala silenciosamente. O que muitas vezes é tratado como “excesso de amor”, “cuidado” ou “proteção”, na verdade revela mecanismos de controle, posse e dominação.
Por isso, o feminicídio raramente começa na agressão física ou no ato final que chega às manchetes. Ele começa muito antes. Começa quando a mulher passa a viver sob medo, submissão e perda gradual da sua liberdade. Reconhecer esses sinais é fundamental, porque identificar precocemente a violência pode significar salvar vidas. O feminicídio, na maioria das vezes, não é o início da violência. Ele é o seu estágio mais extremo.
I – Quando a violência não deixa marcas visíveis.
Um dos maiores desafios no enfrentamento à violência contra a mulher é compreender que ela não se resume à agressão física. A violência psicológica, muitas vezes, é a primeira manifestação do ciclo da violência. Ela aparece no controle sobre roupas, amizades, redes sociais, horários, escolhas e na tentativa constante de limitar a liberdade da mulher.
Também se manifesta nas ofensas, ciúme possessivo, vigilância, desqualificação e tentativa de fazer a mulher acreditar que perdeu seu valor e sua autonomia. Existe ainda a violência moral, sexual e patrimonial que frequentemente permanecem invisíveis aos olhos da sociedade, mas deixam marcas profundas.
Muitas mulheres permanecem anos em relações abusivas tentando sobreviver entre o medo, a dependência emocional, a pressão familiar e a esperança de mudança. Por isso, talvez a pergunta não deva ser: “Por que ela não saiu?”. Mas sim: Por que o agressor continuou agredindo?
II – O feminicídio como expressão máxima da violência de gênero
O feminicídio representa a forma mais extrema da violência contra a mulher. Ele ocorre quando a vítima é morta por ser mulher, em contextos marcados pela discriminação de gênero, controle, posse, dominação e desigualdade.
Esse artigo relata que o feminicídio está diretamente relacionado à violência doméstica e familiar, sendo, muitas vezes, o desfecho mais cruel de ciclos prolongados de agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais.
Na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Embora, em situações específicas, a violência também possa ser praticada por outra mulher, os registros demonstram que, em grande parte dos casos de feminicídio relacionados à violência doméstica e familiar, o autor é alguém próximo da vítima.
É um companheiro. Ex-companheiro. Marido. Namorado. Ou alguém que acreditou possuir o direito de controlar a vida, escolhas, liberdade e existência daquela mulher.
Importante entender que não estamos falando apenas de homicídios. Estamos falando de mulheres que perderam a vida porque alguém acreditou ser dono delas. Porque acreditou possuir autoridade sobre seus corpos, decisões e até sobre o direito de elas continuarem existindo.
O feminicídio, portanto, não é apenas uma tragédia individual. É a expressão de uma violência estrutural e histórica – que ainda coloca mulheres em situação de vulnerabilidade dentro dos próprios espaços familiares e afetivos.
Os números revelam a gravidade dessa realidade. Somente no primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou 399 feminicídios, o maior índice já contabilizado para o período. Isso significa que, em média, uma mulher foi morta a cada 5 horas e 25 minutos.
Vale salientar que por trás das estatísticas existem uma existência interrompida pela violência de gênero. Muitas delas já haviam demonstrado sinais de sofrimento. Algumas denunciaram. Outras procuraram ajuda. Muitas tentaram sair da relação. Ainda assim, não sobreviveram. A maioria esmagadora das mortes ocorre dentro da própria residência da vítima ou na casa do casal.
III – A normalização social também alimenta a violência
Outro aspecto preocupante é a forma como a sociedade ainda relativiza a violência contra a mulher.
Frases como: “Briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. “Ele era uma boa pessoa”. “Ela provocava”. “Foi apenas uma discussão do casal”.
Essas frases continuam sendo repetidas e ajudam a minimizar situações de violência. Esses discursos transferem responsabilidades às vítimas e reduzem a gravidade das agressões.
Na prática, fortalecem o silêncio. Precisamos compreender que violência doméstica não é questão pessoal. É questão de direitos humanos. É questão de segurança pública e de justiça social.

IV – O enfrentamento exige prevenção, proteção e mudança cultural
Combater o feminicídio exige mais do que punir crimes depois da tragédia. É preciso agir antes. Fortalecer cada vez mais as delegacias especializadas. Fiscalizar medidas protetivas. Ampliar em todos os territórios as redes de acolhimento. Garantir atendimento psicológico, social e jurídico acessível.
Defender a implantação e fortalecimento de Secretarias de Proteção às Mulheres nos municípios, com atuação efetiva e integração com o Ministério Público, delegacias e demais órgãos da rede de proteção, inclusive em cidades que não possuam delegacias especializadas.
Também precisamos promover educação baseada no respeito e na igualdade. Precisamos levar esse debate para as escolas, para que as crianças de hoje sejam adultos com outra mentalidade, baseada no respeito, na proteção e na igualdade entre homens e mulheres.
Mas também é necessário enfrentar a cultura que ainda naturaliza comportamentos abusivos e confunde posse com amor. Precisamos ensinar que ciúme não é amor. Controle não é cuidado. Posse não é afeto. Violência nunca será demonstração de amor.
V – Até quando?
Até quando mulheres continuarão perdendo a vida por exercerem o direito de existir?
Até quando o feminicídio continuará interrompendo sonhos, destruindo famílias e deixando filhos órfãos?
Até quando mulheres precisarão viver com medo dentro de suas próprias casas? E, principalmente, até quando alguns homens continuarão acreditando que são donos das mulheres? Donos das suas escolhas? Donos do seu corpo? Donos da sua liberdade? Donos do direito de decidir com quem elas ficam, como vivem e até se podem partir?
Nenhuma mulher é propriedade de ninguém. Mulheres não pertencem a ninguém. Relacionamento não é posse. O fim de uma relação não pode ser sentença de morte. O combate ao feminicídio exige enfrentar não apenas a violência física, mas também a cultura que alimenta ideias de domínio e controle sobre a vida das mulheres.
VII – O silêncio não pode continuar
Cada feminicídio deixa marcas que ultrapassam números. Deixa famílias destruídas. Filhos órfãos. Comunidades marcadas. Histórias interrompidas. Por isso, acredito que o combate à violência contra a mulher não é responsabilidade apenas das mulheres. É compromisso de toda a sociedade.
Precisamos romper o silêncio, fortalecer a proteção e reafirmar diariamente o direito das mulheres à vida, dignidade e liberdade. Porque nenhuma mulher deve morrer por querer ser livre.
Violência contra a mulher é crime. O silêncio não pode ser cúmplice. Denuncie.
Baixe o aplicativo ‘TJBA Zela’ no seu celular e solicite uma medida protetiva.
*Guilma Gottschall Soares é advogada, membro da Comissão de Proteção dos Direitos das Mulheres da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia e ex-prefeita de Nova Redenção.
















































