Da Chapada Diamantina para as páginas de uma história em quadrinhos, ‘Torto Arado’ ganhará uma nova forma de apresentar ao público o sertão baiano retratado por Itamar Vieira Junior. O romance, que já ultrapassou 1 milhão de exemplares vendidos, será adaptado por Rafael Calça e Bennê Oliveira, com o primeiro dos dois volumes previsto para chegar às livrarias no início de novembro pela editora Todavia.
A mudança de linguagem pode aproximar a obra de leitores que ainda não tiveram contato com o livro, sobretudo crianças e adolescentes. O uso de ilustrações, cores e uma narrativa mais visual cria uma experiência lúdica sem abandonar os conflitos presentes na história, podendo despertar o interesse pelo romance original e pela literatura brasileira. A adaptação também permite representar de maneira mais concreta os espaços, personagens e elementos culturais que compõem o universo da obra.
No centro da narrativa estão Bibiana e Belonísia, duas irmãs que vivem em uma comunidade rural do sertão baiano. Ainda crianças, elas encontram uma faca na mala da avó, Donana, e um acidente envolvendo o objeto muda definitivamente a relação entre as duas. A partir dessa história familiar, o romance aborda desigualdade, exploração do trabalho rural, racismo, violência, resistência e a relação dos personagens com a terra.
Confira algumas páginas da HQ
Jarê e ancestralidade no universo de Torto Arado
A espiritualidade ocupa um espaço importante nessa construção. O Jarê, manifestação religiosa de matriz africana característica da Chapada Diamantina, aparece integrado à vida da comunidade retratada por Itamar, envolvendo rituais, práticas de cura e relações com a ancestralidade. A religião ajuda a compreender a identidade dos personagens e a maneira como eles estabelecem vínculos com a comunidade, com a natureza e com aqueles que vieram antes.
A presença do Jarê também cria uma conexão direta com municípios da Chapada, como Lençóis, onde a manifestação permanece ligada à memória e à identidade cultural de diferentes comunidades. Ao levar esses elementos para uma adaptação em quadrinhos, a obra ganha outra possibilidade de apresentar ao público nacional aspectos de uma tradição religiosa que permanece viva na região.
Com 328 páginas coloridas, o primeiro volume também terá versão digital. Rafael Calça, conhecido por seu trabalho nas Graphic MSP de “Jeremias”, assina o roteiro, enquanto Bennê Oliveira ficará responsável pelas ilustrações. Itamar Vieira Junior aprovou o resultado e destacou a capacidade dos artistas de transportar a atmosfera de sua obra para outra linguagem. Publicado originalmente em 2019, ‘Torto Arado’ venceu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos em 2020.
O alcance da história ainda deve ganhar uma nova dimensão em 2027, quando ‘Torto Arado’ será tema do desfile da escola de samba Vila Isabel no Carnaval. A presença da obra na avenida reforça a trajetória de uma narrativa que saiu do sertão baiano, alcançou milhões de leitores e agora continua circulando por diferentes linguagens, levando consigo referências à Chapada Diamantina e à cultura de seus povos.
Jornal da Chapada


