No alto da Serra do Sincorá, a cerca de 18 quilômetros de Andaraí, a vila de Igatu consolidou no turismo a alternativa que garantiu sua sobrevivência após o fim do auge do garimpo. Conhecida como ‘Cidade de Pedras’ e muitas vezes chamada de ‘Machu Picchu baiana’, a localidade transformou ruínas do ciclo do diamante em patrimônio histórico, rota cultural e fonte de renda para cerca de 400 moradores que hoje vivem, em grande parte, da visitação.
Do auge do diamante ao esvaziamento populacional
A origem da vila remonta a 1844, quando garimpeiros vindos de Mucugê e de Minas Gerais chegaram à serra em busca de diamantes. No período de maior prosperidade, Igatu reuniu mais de 9 mil habitantes e se tornou um dos principais polos das Lavras Diamantinas. Com abundância de arenito, casas, muros e até a igreja foram erguidos com blocos de pedra encaixados, sem uso de argamassa.
O declínio veio com o esgotamento das jazidas e, posteriormente, com a produção industrial do diamante negro em laboratório. Ruas inteiras foram abandonadas, e a população caiu drasticamente. O que poderia ter resultado em uma cidade fantasma ganhou outro rumo a partir do reconhecimento oficial das ruínas como patrimônio pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no ano 2000, protegendo cerca de 200 imóveis históricos.

Patrimônio transformado em atração turística
A própria vila é hoje o principal atrativo. As ruas calçadas de pedra, as construções parcialmente tomadas pela vegetação e o cenário preservado do século XIX atraem visitantes interessados em história e fotografia. Nos arredores, o turismo se diversificou com pontos como a Galeria Arte e Memória, idealizada pelo artista plástico Marcos Zacariades, instalada entre ruínas e com exposição de esculturas e objetos do garimpo, além de café.
Entre as opções naturais estão a Gruna do Brejo, antiga mina adaptada para visitação guiada com lanternas; a Cachoeira dos Pombos, a cerca de um quilômetro do centro; a Cachoeira da Califórnia, com trilha mais exigente; e a Rampa do Caim, mirante com vista para o Vale do Pati e o rio Paraguaçu, considerado um dos cenários mais emblemáticos da Chapada.

Cultura, literatura e cinema
Igatu também se projeta pelo legado cultural. A vila é terra natal de Herberto Sales, autor do romance Cascalho, obra que retrata o cotidiano dos garimpeiros e a influência dos coronéis na região. Em 2008, o distrito foi cenário do filme Besouro, ampliando sua visibilidade nacional.
Outra figura central na preservação da memória local é Amarildo dos Santos, morador que realiza anualmente um censo manuscrito da vila, registrando nascimentos, mortes, casamentos e mudanças. Os livros artesanais produzidos por ele se tornaram lembrança procurada por turistas.
Clima e melhor época para visitar
Situada a cerca de 800 metros de altitude, Igatu apresenta noites mais frescas do que outras áreas da Chapada. As chuvas se concentram entre novembro e março, período em que as cachoeiras ficam mais volumosas. Entre junho e setembro, com menor índice de precipitação e temperaturas mais amenas, ocorre a alta temporada, favorecida pelo céu limpo e trilhas mais secas.
Reinvenção após o garimpo
Se no passado a economia girava em torno do diamante, hoje é o turismo que sustenta pousadas, restaurantes, ateliês e pequenos comércios. A valorização do patrimônio histórico, aliada às belezas naturais do entorno, permitiu que Igatu transformasse o fim do ciclo mineral em oportunidade. As pedras que antes simbolizavam riqueza extraída do subsolo passaram a representar identidade cultural e desenvolvimento sustentável, garantindo novo significado à antiga vila garimpeira da Chapada. Jornal da Chapada com informações do Correio Braziliense.
















































