O cenário encontrado na Serra da Chapadinha, na região de Itaetê, após mais um ataque à pousada Toca do Lobo, expôs um novo capítulo de violência em uma área marcada por disputas ambientais e fundiárias. O imóvel foi destruído e parte da estrutura incendiada, semanas após um primeiro atentado que já havia colocado em risco a vida dos ambientalistas Alcione Correa e Marcos Fantini, que atuam na defesa da criação de uma unidade de conservação na região.
O registro da destruição foi feito no dia 6 de junho por equipes do Parque Nacional da Chapada Diamantina, após denúncia de incêndio na área. Segundo o ICMBio, a situação encontrada foi de forte depredação. “A equipe do ICMBio estava com um carro traçado, conseguiu acessar a área e constatou que várias paredes haviam sido quebradas e que havia sido colocado fogo em um dos imóveis”, relata o gerente regional do ICMBio no Nordeste, Carlos Felipe Abirached.
A Polícia Militar e a Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental (CIPPA) foram acionadas, mas não conseguiram chegar ao local devido às condições da estrada. O acesso foi comprometido por um atoleiro, o que dificultou a verificação imediata da ocorrência pelas forças de segurança.

Violência recorrente e suspeitas de intimidação na Serra da Chapadinha
O novo ataque ocorre pouco mais de um mês após a invasão armada à pousada, quando um grupo de homens fortemente armados ameaçou os ambientalistas e levou equipamentos eletrônicos, sistemas de energia solar e outros materiais da propriedade. Na ocasião, além da destruição estrutural, também houve corte de internet e inutilização de armadilhas fotográficas usadas para monitoramento ambiental.
“Na madrugada do dia 1º de maio, um grupo de homens fortemente armados invadiram a pousada, ameaçaram a vida dos ambientalistas e pegaram computadores, celulares, HDs, rádios e uma pistola legalizada que o casal mantinha na propriedade”, relata o texto original da denúncia feita pelos próprios ambientalistas. O episódio é tratado pelos moradores e defensores da região como um possível caso de intimidação ligado a disputas locais.
Desde então, Alcione Correa e Marcos Fantini deixaram o local por questões de segurança. Eles passaram a integrar o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas do governo federal.
A Serra da Chapadinha é considerada estratégica para a segurança hídrica e a conservação da biodiversidade da Chapada Diamantina. A área abriga espécies ameaçadas, como o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae), além de ecossistemas fundamentais para o equilíbrio ambiental da região.

Unidade de conservação avança em meio a tensão e mobilização política
A suspeita dos ambientalistas é de que os ataques estejam relacionados ao avanço da proposta de criação do Refúgio de Vida Silvestre da Serra da Chapadinha, em discussão pelo governo da Bahia. A consulta pública foi aberta em 1º de junho e segue recebendo contribuições, com mais de 240 registros nas primeiras semanas, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Estado (SEMA-BA).
“No período da consulta pública em andamento, instituições públicas municipais, estaduais e federais potencialmente interessadas foram oficialmente convidadas a apresentar contribuições. Também continuam sendo realizadas reuniões virtuais com atores locais, a exemplo da Associação de Produtores da Serra da Chapadinha, além da manutenção de canal direto para esclarecimentos e envio de manifestações”, informou a SEMA em nota.
A pasta também destacou que não há, até o momento, previsão de consultas públicas presenciais. Paralelamente, entidades ambientais e pesquisadores defendem que a criação da unidade é essencial para conter pressões como desmatamento, grilagem e especulação imobiliária na região.
O tema ganhou repercussão em Brasília, quando o casal foi convidado para a cerimônia do Dia do Meio Ambiente, em 10 de junho, promovida pelo governo federal. O episódio colocou a pauta da Serra da Chapadinha em evidência nacional e reforçou o debate sobre a proteção de defensores ambientais no país.

Durante o evento, o ministro do Meio Ambiente destacou o caso e citou a situação enfrentada pelos ambientalistas. “Defensores ambientais seguem sofrendo ameaças e violências em diferentes regiões do Brasil. O Brasil assistiu com indignação ao atentado contra os ambientalistas Alcione Correa e Marcos Fantini na Serra da Chapadinha, na Bahia”, afirmou.
Ele também ressaltou o avanço institucional da proposta: “Ao mesmo tempo, informo com prazer que o governo da Bahia já iniciou com apoio do nosso Ministério do Meio Ambiente, os trabalhos para transformar a área defendida pelos nossos líderes ambientais ameaçados em uma unidade de conservação estadual que vai garantir a proteção e perpetuidade daquela área”.
A presença do tema em agendas federais reforçou a busca por maior visibilidade e proteção ao território. “Nós andamos muito preocupados com o que aconteceu porque somos muito poucos do setor ambiental e socioambiental. E essas agressões… a gente entende que mexeu com eles, mexeu conosco. Poderia ser qualquer um de nós, do terceiro setor, órgão público…”, afirmou o gerente regional do ICMBio.
Enquanto isso, a Serra da Chapadinha segue no centro de uma disputa que envolve conservação ambiental, segurança de defensores e tensões fundiárias ainda sob investigação, em meio ao avanço do processo de criação da unidade de conservação e ao aumento da preocupação com a segurança na região. Jornal da Chapada com informações do portal O Eco.















































