O pré-candidato ao governo estadual, ACM Neto (União), pode ter dado um verdadeiro ‘tiro no pé’ ao decidir, de vez, escolher um lado na política nacional, justamente um campo que historicamente não encontra terreno fértil na Bahia. Depois de anos adotando uma postura mais cautelosa, evitando se posicionar de forma clara, o ex-prefeito de Salvador agora parece disposto a assumir um alinhamento com o bolsonarismo, ao lado do presidente do PL na Bahia, João Roma, e do senador Ângelo Coronel (REP), movimento que, no cenário baiano, soa mais como risco do que estratégia.
A própria composição da chapa reforça esse caminho. A presença de João Roma, um dos principais nomes ligados ao bolsonarismo no estado, praticamente elimina qualquer dúvida sobre o posicionamento político adotado. A construção do grupo não deixa margem para interpretações mais suaves, já que os nomes envolvidos carregam um histórico político bem definido e conhecido do eleitor baiano.
Não se trata apenas de um possível apoio futuro ou de sinais indiretos. A sinalização é concreta e já vem sendo demonstrada em movimentos recentes. Na última terça-feira (16), em Brasília, ACM Neto esteve ao lado de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República e um dos principais opositores do governo Lula (PT). O registro público do encontro reforça o alinhamento que começa a se consolidar de forma cada vez mais explícita.
A chapa montada por ACM Neto, portanto, já carrega esse posicionamento em sua base. Diante disso, fica cada vez mais difícil sustentar qualquer discurso de neutralidade ou independência política. A estratégia que antes permitia dialogar com diferentes correntes dá lugar a uma escolha clara, que inevitavelmente traz consequências eleitorais.
Enquanto isso, a agenda de viagens pelo interior, com passagens por cidades como Itabuna, Ibicaraí e Jequié, segue sendo tratada como prioridade pelo grupo. A expectativa é fortalecer alianças e consolidar apoios locais, incluindo possíveis definições sobre a vice, com o nome de Zé Cocá (PP) sendo ventilado. Ainda assim, a movimentação parece secundária diante do impacto político da escolha feita.

Entre coragem e teimosia política
Todos sabem que a Bahia não é, nem de longe, um reduto favorável ao bolsonarismo. O histórico recente das eleições mostra um eleitorado fiel ao presidente Lula, o que torna essa escolha ainda mais questionável. Em vez de ampliar sua base, Neto parece disposto a apostar em um campo político que enfrenta forte resistência no estado.
O caso de Ângelo Coronel merece um capítulo à parte. Eleito senador com o apoio direto de nomes como Jaques Wagner (PT) e Otto Alencar (PSD), Coronel já vinha sendo observado com desconfiança dentro da própria base do governo de Jerônimo Rodrigues (PT) por, em diversas ocasiões, votar contra pautas da esquerda. Ainda assim, sua permanência naquele campo político era considerada natural até pouco tempo. A mudança de lado, agora oficializada ao integrar o grupo de ACM Neto, foi lida por muitos como uma ruptura brusca, e até como traição. Ao assumir essa nova posição, ele passa a compor um projeto com contornos mais alinhados à direita, e até à extrema-direita, movimento que pode ter impacto negativo em sua trajetória política.
Outro ponto que chama atenção está na própria dinâmica dos eventos políticos do ex-prefeito. Em viagens pelo interior e encontros com apoiadores, o que se vê é uma configuração pouco comum para quem busca ampliar conexão popular. As cadeiras dos espaços principais costumam ser ocupadas por empresários, lobistas e financiadores de campanha, enquanto o público em geral acompanha os discursos à distância, muitas vezes por telões. A imagem que se constrói é de um projeto que dialoga mais com quem financia do que com quem vota.
Ao escolher um lado de forma tão evidente, ACM Neto passa a carregar um rótulo difícil de reverter em um cenário eleitoral polarizado, o que pode acabar beneficiando diretamente seu principal adversário nas urnas. Mesmo enfrentando resistência de parte da população baiana diante da crise na segurança pública, o governador Jerônimo Rodrigues pode ganhar um novo fôlego político justamente a partir dos erros de estratégia do próprio ACM Neto.
No fim das contas, ACM Neto até pode tentar vender a ideia de uma candidatura ampla, mas a imagem que começa a se consolidar é outra. Ao se aproximar de um campo político com baixa aceitação na Bahia e ao adotar uma estratégia que distancia o eleitor comum, o pré-candidato corre o risco de transformar uma eleição competitiva em um caminho mais complicado do que o necessário. E, nesse cenário, o tal ‘tiro no pé’ deixa de ser exagero para se tornar uma possibilidade cada vez mais concreta.
Jornal da Chapada















































