A visita do governador Jerônimo Rodrigues (PT) a Boa Vista do Tupim, no último domingo (17), durante a 4° Cavalgada da Esperança, parecia reunir todos os elementos de um grande espetáculo político do interior: helicóptero, locutor exaltando feitos do governo, desfile montado a cavalo e uma estrada inacabada tratada quase como obra histórica. Faltou apenas combinar com a população, que aguardava respostas para problemas antigos e acabou assistindo a uma apresentação cuidadosamente roteirizada.
Enquanto moradores esperavam respostas para os constantes problemas no abastecimento da Embasa e cobranças históricas sobre infraestrutura, a visita acabou sendo marcada mais pelo clima de promoção política do que por anúncios concretos. A principal ‘atração’ da agenda foi o próprio governador e a celebração de uma obra vexatória: dos 16 quilômetros de asfalto prometidos para o trecho até o Baixio, apenas cerca de 4 quilômetros foram efetivamente entregues. Sem sinalização adequada e ainda incompleto, o trecho virou símbolo do contraste entre a propaganda oficial e a realidade enfrentada por quem depende diariamente da estrada.
Na prática, a matemática política parece simples. Promete-se uma grande obra, entrega-se um pequeno trecho e comemora-se como se fosse transformação completa da região. Em Boa Vista do Tupim, o asfalto virou quase peça cenográfica da visita oficial, enquanto o restante da estrada segue existindo mais nos discursos do que no chão propriamente dito.
Um dos temas mais esperados pela população durante a passagem do governador acabou praticamente ignorado: a situação da Embasa no município. Em diversos bairros e comunidades rurais, moradores convivem há anos com reclamações sobre falhas no abastecimento, demora no fornecimento e constantes períodos de falta d’água. Ainda assim, o problema ficou fora do centro das discussões oficiais, mesmo sendo uma das principais cobranças da população local.
A chegada do governador também provocou repercussão nos bastidores políticos locais. Segundo relatos, o pouso do helicóptero teria sido alterado de última hora e realizado na fazenda do advogado Henrique Coimbra, em vez do Colégio Estadual, onde servidores e apoiadores aguardavam a recepção oficial. A movimentação foi interpretada por adversários e até aliados como uma tentativa de evitar desgaste político e possíveis constrangimentos públicos.

Entre cavalos, discursos e cobranças ignoradas
Montado a cavalo, Jerônimo Rodrigues tentou reforçar conexão com a cultura vaqueira e com as tradições sertanejas da região. O problema é que muitos moradores sentiram que os verdadeiros protagonistas da festa, os vaqueiros, acabaram virando figurantes de um grande ato político. Em vários momentos, o foco parecia menos a tradição cultural e mais a construção da imagem do governador diante das câmeras e do público.
Relatos de participantes apontam que o sistema de som passou boa parte da programação exaltando ações do Governo da Bahia, programas estaduais e lideranças políticas. Enquanto isso, homenagens efetivas aos vaqueiros, trabalhadores rurais e figuras tradicionais da cavalgada praticamente ficaram em segundo plano. Para alguns presentes, a festa parecia mais um palanque montado em cima de cavalos do que propriamente uma celebração cultural.
Nem mesmo o momento delicado vivido pela cidade impediu o tom festivo da agenda. A chegada da comitiva estadual ocorreu em meio ao clima de luto pela morte de um morador conhecido do município, situação que gerou desconforto entre parte da população. Para muitos, o cenário pedia mais sensibilidade institucional e menos clima de evento político.
As entregas de equipamentos agrícolas feitas pelo governo acabaram tendo repercussão menor diante do sentimento de frustração de moradores que esperavam ouvir soluções concretas para problemas básicos do município. Em uma cidade onde a água ainda chega ‘gota a gota’ para muitos moradores e obras seguem pela metade, a visita do governador deixou a impressão de que o espetáculo foi cuidadosamente produzido, mas o roteiro esqueceu justamente da plateia principal: a população.
Jornal da Chapada














































