Natural de Brotas de Macaúbas, o geógrafo Milton Santos construiu uma obra que integrou política, economia e sociologia para interpretar o espaço geográfico de forma inovadora. Reconhecido como um dos maiores intelectuais do século 20, ele ganhou projeção internacional ao longo de uma trajetória marcada pela produção teórica e pelo diálogo com diferentes áreas do conhecimento.
Negro e neto de um homem escravizado, Milton Santos teve sua trajetória marcada pela superação e por uma produção intelectual de alcance global. Nascido há 100 anos, sua obra reposicionou a geografia como ferramenta crítica capaz de interpretar desigualdades sociais e espaciais.
Em 1994, o reconhecimento internacional ganhou um marco definitivo. Milton Santos foi laureado com o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Até hoje, ele é o único pesquisador latino-americano a obter tal reconhecimento, um feito que evidencia a dimensão global de sua contribuição intelectual.
Um dos responsáveis por difundir seu pensamento no exterior, o geógrafo Lucas Melgaço, professor da Vrije Universiteit Brussel, afirma que o brasileiro ultrapassou os limites da disciplina. “Embora bastante disciplinar, no sentido de que ele se preocupava em repensar o que era a geografia, seu objeto e o trabalho do geógrafo, ele conseguiu ultrapassar os limites da disciplina, tornando-se uma referência para várias ciências sociais”, contextualiza Melgaço.
Segundo o pesquisador, o principal legado está na construção de um método consistente. “Ele deixou vários legados. Acredito que a principal contribuição de Milton Santos para as ciências sociais, no Brasil e no mundo, foi a construção de um método, um conjunto de conceitos e teorias coerentes, que se complementam e se transformam em ferramentas poderosas para compreender o mundo contemporâneo”, afirma. Ele acrescenta que “ele não criou apenas neologismos, algo comum na academia hoje, muitas vezes ligado ao ego dos pesquisadores buscando crédito por ideias que outros já trabalharam, mas revisitou termos existentes ou criou novos, de uma forma que eles dialogam entre si”.

A crítica à globalização ocupa posição central em sua obra. Para Milton Santos, o fenômeno, conduzido sob a lógica neoliberal, aprofunda desigualdades e exclui parcelas significativas da população mundial. Ao mesmo tempo, ele defendia a possibilidade de uma “outra globalização”, baseada na humanização, na valorização das periferias e na distribuição mais justa de renda.
O sociólogo Paulo Niccoli Ramirez destaca essa contribuição. “Ele reviu o conceito de globalização”, percebendo como o fenômeno, operado “pelo modelo neoliberal”, produz desigualdades entre centro e periferia. Ramirez afirma ainda que “ele desejou uma globalização mais humanizada, pensando nas periferias e em como um processo de acumulação capitalista poderia contribuir para a maior distribuição de renda”. Para ele, “é um autor lapidar, fundamental em todo o mundo, para podermos entender as contradições do processo de globalização”.
Espaço, desigualdade e um legado que segue atual
Outro ponto fundamental de sua teoria é a redefinição do espaço geográfico. Milton Santos propôs o conceito de “território usado”, no qual o espaço não é apenas físico, mas resultado da interação entre objetos e ações humanas.
Melgaço explica que “de forma mais concreta, talvez a sua concepção de que o espaço geográfico não é apenas o palco das ações humanas, mas um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações seja um de seus principais legados”. Ele acrescenta que “grande parte de sua teoria gira em torno dessa ideia central, principalmente na última fase de sua vida acadêmica. Também é altamente relevante sua visão de que a geografia funciona como uma filosofia das técnicas. Esse conceito, por vezes abstrato e complexo, é fundamental para entender o período atual, incluindo as perversidades da globalização, as desigualdades técnicas, as opacidades dos territórios, as contrarracionalidades e as inventividades dos espaços que ele chamava de hegemonizados”.
Milton Santos também se destacou pelos estudos sobre urbanização nos países em desenvolvimento, abordando temas como pobreza, favelização e o chamado circuito inferior da economia urbana.
O geógrafo Cristiano Nunes Alves ressalta a aplicabilidade dessas ideias. “Ele nos traz um conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que efetivamente podem ser aplicadas na análise dos territórios, na análise espacial”, afirma. Segundo ele, “sua obra tem um fundo filosófico muito claro e presente, mas, ao mesmo tempo, não está apartada da concretude”.
Entre suas formulações mais conhecidas está a proposta dos “Quatro Brasis”, uma leitura do território nacional baseada em desigualdades de infraestrutura, densidade populacional e integração econômica.
O geólogo Marco Moraes avalia que “essa divisão proposta por ele do Brasil mostra não só a base física, mas as regiões como palco de uma série de relações e conflitos, com suas diferenças não só nas geografias física e humana, mas na própria relação entre estados, elites e poder econômico, impactando nas pessoas que ali vivem”.

A trajetória acadêmica de Milton Santos foi profundamente impactada pelo Golpe Militar de 1964. Após ser preso, ele seguiu para o exílio, onde lecionou em instituições internacionais como a Universidade de Toulouse, a Universidade de Paris (Sorbonne) e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde construiu diálogo com o linguista Noam Chomsky.
De volta ao Brasil, consolidou sua carreira na Universidade de São Paulo, onde permaneceu até o fim da vida.
A questão racial, embora não tenha sido o eixo central de sua teoria, atravessou sua trajetória e pensamento. Cristiano Nunes Alves afirma que “embora ele não tenha teorizado no sentido amplo sobre a questão de raça, sua perspectiva de homem negro está em todo o seu trabalho”. Ele acrescenta que “ele dá ferramentas para pensar e para ler a formação social brasileira com o elemento racial como estruturante de nossa história territorial”.
Melgaço observa que “ele sempre buscava ver a questão racial dentro de uma estrutura mais ampla e complexa” e lembra uma afirmação do próprio geógrafo. “Ele dizia que não era um especialista na questão negra, mas que a questão negra era a sua história”.
Para o pesquisador Breno Costa, a principal contribuição de Milton Santos foi transformar a geografia. “A obra de Milton Santos tem como principal legado o entendimento do espaço geográfico. Com os seus estudos, ao teorizar o espaço como um sistema de objetos e ações, a geografia começa a se debruçar também sobre as atividades humanas e as relações econômicas, deixando de se fixar majoritariamente no estudo da paisagem e aumentando sua interdisciplinaridade”.
Ele afirma ainda que “ele se esforçou em entender, sobretudo, os países subdesenvolvidos e as formas de urbanização precárias” e reforça que “foi um crítico incansável do fenômeno da globalização”.
Apesar do reconhecimento internacional, especialistas apontam que Milton Santos ainda é pouco celebrado no Brasil. Marco Moraes resume essa percepção ao afirmar que “não só por sua história, de um negro de origem humilde que ganhou o principal prêmio da geografia, mas pela contribuição incrível de seu trabalho”. Ele conclui dizendo que “sua compreensão de espaço geográfico não como substrato inerte para atividade humana, mas como coisa dinâmica que influencia e é influenciada pela atividade humana, é essencial”.
Décadas após sua morte, Milton Santos permanece como referência indispensável para compreender o mundo contemporâneo e suas desigualdades, oferecendo caminhos para pensar uma globalização mais justa e inclusiva. Jornal da Chapada com informações do portal G1.














































