Em meio ao crescimento da violência na Bahia e às incertezas do cenário eleitoral deste ano, o governo Jerônimo Rodrigues (PT) decidiu apostar em uma nova ofensiva de comunicação institucional. Batizada de ‘Nova Bahia’, a campanha tenta vender a imagem de um estado em transformação, destacando ações nas áreas de infraestrutura, saúde e educação. O problema é que, em meio ao discurso otimista, um tema parece ter sido cuidadosamente deixado de fora da propaganda: a segurança pública.
O novo material publicitário aposta em frases genéricas, estética emocional e mensagens amplas sobre desenvolvimento, mas evita aprofundar discussões sobre os problemas mais sensíveis enfrentados atualmente pela população baiana. Enquanto o governo fala em avanços e mudanças concretas, moradores da capital e do interior convivem diariamente com episódios de violência, crescimento da criminalidade e sensação de insegurança cada vez mais presente nas ruas.
“A ‘Nova Bahia’ coloca o povo baiano no centro da narrativa: quem estuda em uma escola de tempo integral, quem acessa saúde mais perto de casa, quem tem apoio para produzir mais no campo e quem ganha mobilidade e tranquilidade com novos equipamentos públicos dá voz, rosto e emoção às mudanças em curso”, diz um trecho do texto.

A ausência do tema segurança pública chama ainda mais atenção porque essa é justamente uma das áreas que mais desgastam a imagem da atual gestão e um dos principais trunfos políticos da oposição, especialmente de seu principal adversário, o pré-candidato ao governo estadual ACM Neto (União). Em vez de enfrentar diretamente o assunto, a campanha prefere apostar em uma narrativa mais leve, quase publicitária, tentando deslocar o foco para obras, investimentos e peças de impacto visual.
Outro detalhe que gerou estranheza nos bastidores foi a presença de declarações atribuídas a um secretário de comunicação identificado como Marcus Di Flora, nome completamente desconhecido do grande público e ausente do debate político estadual.
A estratégia digital também chamou atenção pelo alcance restrito do conteúdo. O texto da campanha circulou principalmente entre usuários impactados por publicidade patrocinada do governo estadual, sem grande repercussão orgânica. Para críticos da peça, o material apresenta uma visão superficial da realidade baiana, com excesso de marketing institucional e pouca profundidade sobre os desafios reais enfrentados tanto na capital quanto nos municípios do interior.

Entre a propaganda institucional e a violência cotidiana
Enquanto a campanha tenta vender a imagem de uma Bahia renovada, os números da violência seguem dominando o debate público. Casos recentes continuam repercutindo em todo o estado, como a morte do jovem Lucas Mendes de Jesus, de 19 anos, durante uma ação policial no bairro de Valéria, em Salvador. O episódio motivou inclusive uma manifestação pública do UNICEF, reacendendo discussões sobre segurança pública, atuação policial e proteção da juventude periférica na Bahia.
Outra questão que tem sido levantada no debate político é que o governador Jerônimo Rodrigues, em algumas ocasiões públicas, tem evitado responder de forma direta a questionamentos sobre o avanço da insegurança no estado. Em entrevistas e agendas recentes, há registros de respostas mais curtas ou mudanças de foco quando o tema é abordado.
Com o governador Jerônimo Rodrigues adotando uma postura de cautela ao tratar do tema, os dados mais recentes do Ministério da Justiça mostram que a Bahia registrou 818 homicídios dolosos no primeiro trimestre de 2026, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, que teve 881 casos no mesmo período. O estado também aparece de forma recorrente entre os maiores índices de violência do país, o que mantém o tema sob forte pressão no debate público.
Em um cenário em que a segurança pública ocupa espaço central em discussões políticas e eleitorais, o contraste entre o discurso institucional e a realidade percebida nas ruas tem sido cada vez mais explorado por críticos da gestão. Para parte das análises, a comunicação oficial aposta em uma narrativa de avanços e transformação, enquanto temas mais sensíveis seguem em segundo plano, reforçando a percepção de uma espécie de maquiagem da realidade diante dos desafios ainda presentes no estado.
Jornal da Chapada












































