O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), resolveu subir o tom contra o senador Angelo Coronel (Republicanos) durante o Programa de Governo Participativo (PGP), realizado no dia 3 de maio, em Seabra, na Chapada Diamantina. O discurso, carregado de críticas após o rompimento político entre os dois grupos, chamou atenção não apenas pela dureza das palavras, mas principalmente pelo timing. Afinal, só agora Jerônimo descobriu que Coronel ‘não gosta do povo pobre’?
Ao lado do senador Otto Alencar (PSD), o governador fez questão de reforçar a fidelidade dos aliados que permaneceram em sua base e disparou contra o agora adversário político. “Vou pegar na mão dos três senadores nossos, que são verdadeiros: Otto, Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT). Você tem que ouvir daqueles que ajudamos a eleger. E ter que ouvir dele que mudou de lado: “pegue seu voto e vá para longe da gente”, declarou Jerônimo diante do público.
Em outro trecho do discurso, o governador aumentou ainda mais o tom e associou Coronel ao grupo político liderado por ACM Neto (União). “Nós o carregamos no ombro. Ele vai continuar fazendo isso o resto da vida, mas longe de nós. Ele se juntou ao time que é igualzinho a ele, que não gosta do povo pobre, que não gosta de gente”, afirmou.
A declaração, no entanto, abriu espaço para uma pergunta inevitável nos bastidores da política baiana. Se Angelo Coronel realmente nunca teve alinhamento com pautas sociais defendidas pela esquerda, por que isso só virou problema depois do rompimento político? Durante anos, Coronel integrou a base governista, recebeu apoio do grupo petista e foi eleito senador com forte sustentação do campo liderado pelo PT na Bahia.

Os sinais de divergência, aliás, não surgiram agora. Em 2019, Coronel votou favoravelmente à Reforma da Previdência, proposta amplamente criticada por setores da esquerda e por movimentos sindicais. Dois anos depois, também apoiou pontos da chamada mini reforma trabalhista, defendida pelo mercado como medida de flexibilização econômica, mas vista por críticos como uma redução de garantias trabalhistas.
As posições do senador sobre programas sociais também já vinham provocando desconforto dentro da própria base governista. Coronel chegou a afirmar publicamente que o Bolsa Família poderia desestimular a busca pelo emprego formal, declaração que destoava diretamente do discurso tradicionalmente adotado pelo PT em defesa da ampliação de políticas sociais e de transferência de renda.
Mais recentemente, o senador também se posicionou contra o fim da escala 6×1, alegando que a mudança poderia gerar desemprego e prejudicar empresários. A fala reforçou a percepção de que Coronel mantinha uma linha política mais próxima do setor empresarial e distante de pautas trabalhistas defendidas por movimentos progressistas.
Por isso, a crítica feita agora por Jerônimo Rodrigues acabou gerando um efeito curioso no meio político. Não pela ruptura em si, que já vinha sendo desenhada há meses, mas pela impressão de que determinadas diferenças ideológicas só passaram a incomodar de verdade depois que Angelo Coronel decidiu atravessar a rua e se aproximar politicamente de ACM Neto. Em Brasília e na Bahia, muitos já enxergavam essas divergências há bastante tempo. O governador, aparentemente, resolveu verbalizá-las apenas agora.
Jornal da Chapada












































