Por Rafael Manga*
Às vésperas das celebrações do 2 de Julho, data magna da Independência da Bahia, Salvador volta a discutir um tema que ultrapassa a simples mudança do nome de uma praça. O debate revela uma disputa muito maior: quem merece ocupar os espaços de memória da cidade?
A Praça Maria Felipa nasceu de uma reivindicação da sociedade civil. A iniciativa foi idealizada pelo Guia Negro, ganhou o apoio de artistas, intelectuais e diversos segmentos do movimento negro, e foi transformada em projeto de lei pelo vereador Suíca, negro e historiador. O objetivo era reparar uma ausência histórica e reconhecer uma personagem fundamental da Independência da Bahia que, por séculos, permaneceu invisibilizada.
Maria Felipa de Oliveira não é uma personagem criada recentemente. Sua trajetória faz parte da luta popular pela expulsão definitiva das tropas portuguesas do território baiano. Mulher negra, marisqueira, pescadora e liderança comunitária da Ilha de Itaparica, tornou-se símbolo da participação popular e feminina na Independência do Brasil na Bahia.
A homenagem representou muito mais do que a alteração da nomenclatura de uma praça. Foi um gesto de reparação histórica. Um reconhecimento de que a memória oficial brasileira sempre privilegiou determinados personagens, enquanto relegava ao esquecimento mulheres, negros, indígenas e o povo que efetivamente construiu a história do país.
Agora, um projeto pretende revogar essa conquista e restabelecer o nome de Praça Visconde de Cairu.
A justificativa apresentada sustenta que a proposta busca recuperar a denominação histórica da praça, em razão da importância de Visconde de Cairu para a formação econômica, política e cultural do Brasil.
O argumento, entretanto, revela uma compreensão limitada do próprio conceito de patrimônio histórico.
Preservar a história não significa impedir que ela seja ampliada. Muito menos significa negar espaço para personagens que foram apagados da memória coletiva. A cidade não perde sua história ao homenagear Maria Felipa. Ao contrário: ela a torna mais completa, mais plural e mais fiel aos acontecimentos que moldaram a Independência da Bahia.
A história de Visconde de Cairu permanece registrada em livros, pesquisas, monumentos e documentos. Seu legado não desaparece porque uma praça passou a homenagear Maria Felipa.
A verdadeira pergunta, portanto, é outra: por que, sempre que uma mulher negra conquista um espaço simbólico de reconhecimento, surgem iniciativas para retirar exatamente esse espaço?
Não se trata de apagar Visconde de Cairu. Trata-se de reconhecer que, durante mais de dois séculos, personagens como Maria Felipa sequer tiveram a oportunidade de ocupar esses lugares de memória.
O 2 de Julho é celebrado justamente porque a Independência da Bahia foi uma construção coletiva. Não foi obra exclusiva de militares, políticos ou intelectuais. Foi resultado da coragem de homens e mulheres anônimos, de negras, negros, indígenas, trabalhadores, pescadores, marisqueiras e do povo baiano.
Retirar o nome de Maria Felipa da praça representa um retrocesso simbólico. É sinalizar que a reparação histórica pode ser interrompida assim que começa a produzir efeitos.
A Bahia, referência nacional na valorização de sua ancestralidade e de sua identidade afro-brasileira, não precisa escolher entre preservar o passado e ampliar a memória. É perfeitamente possível reconhecer figuras como Visconde de Cairu sem retirar o espaço conquistado por uma heroína da Independência.
Em tempos em que tanto se fala sobre identidade, pertencimento e valorização da história, o verdadeiro desafio não é restaurar antigos privilégios da memória oficial. É construir uma narrativa capaz de contemplar todos aqueles que fizeram da Bahia um território de resistência.
Defender a permanência da Praça Maria Felipa não é apenas defender um nome. É defender o direito de a história ser contada por inteiro.
*Rafael Manga é comunicador e militante do movimento negro.
















































