A história que culminou em uma das tragédias mais chocantes da Bahia teve início longe do litoral, no interior da Chapada Diamantina. Muito antes de ser conhecida como Marata, a mulher envolvida no sacrifício de oito crianças em 1977 era Maria Nilza Pessoa, jovem moradora do povoado da Barra, no município de Mundo Novo.
Criada em uma região marcada por dificuldades econômicas, isolamento e forte religiosidade, Nilza vivia em um contexto comum a muitas famílias do interior baiano na década de 1970. A rotina simples e a influência das igrejas evangélicas moldavam o cotidiano da população, onde a fé ocupava papel central.
Foi nesse ambiente que, em 1975, Nilza conheceu José Maurino de Carvalho durante uma visita a uma igreja em Feira de Santana. O encontro, aparentemente comum, marcaria o início de uma trajetória que terminaria em tragédia. A conexão entre os dois foi imediata, sustentada por conversas sobre religião e trocas de cartas.
Pouco tempo depois, Maurino afirmou ter tido uma visão divina e passou a acreditar que havia sido escolhido para uma missão espiritual. Convencida pela narrativa do companheiro, Nilza aceitou abandonar sua vida no interior para segui-lo. A partir desse momento, ambos romperam com suas identidades anteriores e passaram a se chamar Matota e Marata.

Da Chapada à formação da seita
O casal retornou ao interior, onde tentou consolidar sua liderança religiosa. Em meio a uma população vulnerável, com baixo acesso à informação e marcada por dificuldades sociais, encontraram terreno fértil para disseminar suas ideias. Na região rural, conquistaram seguidores, reorganizaram famílias e passaram a exercer forte influência sobre o grupo.
A convivência com a família de Nilza, no entanto, foi marcada por conflitos, especialmente com o pai, que não aceitava o comportamento do casal. Com o tempo, eles deixaram o povoado e se instalaram em uma fazenda da região, onde ampliaram o número de adeptos e fortaleceram a estrutura da seita.
Sob liderança de Matota, o grupo passou a adotar práticas cada vez mais rígidas e a seguir orientações baseadas em supostas revelações divinas. Documentos foram destruídos, nomes foram alterados e a obediência absoluta passou a ser exigida dos seguidores.
Em março de 1977, já com dezenas de integrantes, o grupo se deslocou para Salvador, instalando-se nas dunas da Lagoa do Abaeté. Ali, em condições precárias, viveram por semanas isolados, guiados apenas pela fé e pelas ordens do líder religioso.

A tragédia que chocou a Bahia
Na noite de 30 de abril de 1977, o grupo seguiu em silêncio até a praia de Stella Maris, onde, sob orientação de Matota e Marata, oito crianças, com idades entre sete meses e oito anos, foram sacrificadas no mar. O episódio chocou o estado e rapidamente ganhou repercussão nacional.
Os corpos começaram a ser encontrados no dia seguinte na faixa litorânea, o que mobilizou autoridades e deu início a uma investigação que levou à localização do grupo poucos dias depois. Os integrantes foram encontrados nas dunas, em estado de abandono, e levados para prestar depoimento.
Durante as investigações, ficou evidente o nível de influência exercido pelos líderes sobre os seguidores. Muitos afirmaram ter agido por medo ou por acreditarem que cumpriam uma ordem divina, o que levantou debates sobre fanatismo religioso e vulnerabilidade social.

Presos meses após o crime, Matota e Marata foram encaminhados ao sistema prisional e posteriormente ao Hospital de Custódia, junto com outros integrantes do grupo. Anos depois, avaliações apontaram que os envolvidos não tinham plena capacidade de compreender a gravidade de seus atos à época.
Décadas após o episódio, o caso ainda é lembrado como um dos mais perturbadores da história recente da Bahia. A trajetória de Nilza, que saiu de um pequeno povoado da Chapada Diamantina para se tornar protagonista de uma tragédia, permanece como um alerta sobre os riscos do extremismo e da manipulação da fé. Jornal da Chapada com informações do portal Correio.

















































